Método Chico Bento de Levantamento – aplicado na herpetologia


(André de Meijer, “Carta 206”, de 26/11/2018)

Descrevi o Método Chico Bento de Levantamento Biológico na minha carta “Em meio às aves” (Meijer 2017). Para a sua aplicação existem três requisitos básicos: o pesquisador (a) está sem pressa, (b) fixou residência no coração da sua área de pesquisa e (c) não faz buscas nem coletas. Na carta referida mostrei que o método é aplicável em levantamentos qualitativos de aves e hoje quero mostrar que serve também para um levantamento quali e quantitativo de répteis.

Desde 2003 resido na APA de Guaraqueçaba, uma região selvagem onde recebi o apelido de “dedo-duro do IBAMA”. Acontece que certos moradores acham suspeito o meu costume de caminhar diariamente pelas estradas. Na realidade, caminho para me exercitar, para arear a cabeça, buscar inspiração e quem sabe encontrar uma planta, bicho ou pessoa interessante. Desde sempre aproveito essas caminhadas também para anotar os animais encontrados mortos pelo tráfego. Assim, tenho acumulado dados sobre mil e quatrocentos animais mortos pelo tráfego a partir de 2003, nos municípios de Guaraqueçaba e Antonina. Destas vítimas:

668 são répteis, representando 25 espécies;

489 são anfíbios, representando 15 espécies;

172 são aves, representando 76 espécies;

51 são mamíferos, representando 16 espécies.

 

As espécies das quais neste período foram encontradas mais de vinte exemplares mortos pelo tráfego são: Rhinella abei (sapo-cururuzinho; 245 exemplares), Erythrolamprus miliaris (cobra-d’água; 185), Sibynomorphus neuwiedi (dormideira; 69), Ophiodes striatus (cobra-de-vidro; 65), Rhinella icterica (sapo-cururu; 63), Hypsiboas faber (sapo-ferreiro; 50), Bothrops jararaca (jararaca; 46), Hypsiboas albomarginatus (perereca; 46), Salvator merianae (teiú; 46), Chironius fuscus (cobra-cipó, 33), Xenodon neuwiedii (boipeva; 25), Bothrops jararacussu (jararacuçu; 32), Leptodactylus latrans (rã-do-folhiço; 30), Spilotes pullatus (caninana; 28) e Erythrolamprus aesculapi (cobra-coral-falsa; 25).

Como se vê, em termos quantitativos, os répteis e anfíbios dominam entre as vítimas de tráfego. Por esta razão decidi dedicar esta carta à seguinte questão: qual é a porcentagem das espécies de répteis presentes na APA de Guaraqueçaba que eu consegui registrar através de:

– caminhadas pelas estradas sem lenço e sem documento;

– apreciação da bela vista a partir da residência.

O resultado é mostrado no Apêndice 1.

Atualmente são conhecidas da APA de Guaraqueçaba 44 espécies de répteis (ver Apêndice 1). Duas são tartarugas da água salgada e salobra e estas eu não teria condições de observar a partir da minha varanda (não moro na margem da baía) e dificilmente elas serão mortas pelo tráfego motorizado dentro da APA. Das 42 espécies restantes, 28 espécies, o que corresponde a exatamente dois terços (66,7%) do total, eu consegui registrar aplicando o Método Chico Bento. Considero isto um resultado bastante satisfatório.

Além da obtenção de uma lista dos répteis da APA, o Método Chico Bento também rendeu dados para as espécies individuais, a respeito…

  1. do comprimento máximo de exemplares adultos;
  2. da abundância;
  3. da distribuição pelo território;
  4. da distribuição pelas estações do ano.

Dentro do grupo de serpentes vou oferecer um exemplo para cada um destes quatro itens, baseado exclusivamente em exemplares encontrados mortos pelo tráfego dentro da APA (base de dados: Meijer 2017):

  1. o maior comprimento é alcançado por três espécies de colubrídeas: a caninana (210 cm) e as cobras-cipó Chironius foveatus (195 cm) e laevicollis (190 cm). Trata-se de ágeis escaladores de árvores e, no caso da caninana, também de residências.
  2. a cobra-d’água Erythrolamprus miliaris é a espécie de serpente mais frequente da área em terrenos abertos e brejosos.
  3. Xenodon neuwiedii não tem uma abundância homogênea pela área: encontrei 30 vítimas ao longo da rodovia PR-405 e apenas uma vítima na PR-340.
  4. Das vinte espécies de serpentes encontradas como vítima de trafego no litoral norte, quinze tem sido registradas ao longo do ano, inclusive no período mais frio (julho-setembro). As cinco espécies ainda não registradas no inverno são raras na APA, o que pode ser a única razão delas ainda não terem sido registradas por mim naquela estação.

 

Os dados acumulados também mostram o período do ano em que os exemplares jovens são relativamente abundantes. Vou exemplificar isso para oito espécies de serpentes comuns, tratadas em ordem alfabética nas tabelas 1 a 8 a seguir.

 

Tabela 1. Bothrops jararaca (jararaca): relação exemplares juvenis / adultos entre as vítimas de tráfego encontradas no litoral norte do Paraná, no período de 2004 a 2018.(1)

Estação Verão Outono Inverno Primavera Total
Mês Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez
Número de exemplares juvenis (compr. 27-33 cm) [A] 2 0 3 1 1 1 0 1 3 4 1 2 19
Número de exemplares adultos (compr. 37-125 cm) [B] 3 2 1 2 2 2 1 4 2 4 6 6 35
[A/B] 0,66 0 3 0,5 0,5 0,5 0 0,24 1,5 1 0,18 0,33 Média:

0,54

(1) O meu critério para considerar um exemplar desta espécie como “juvenil” é, além do tamanho reduzido, a característica de a parte final da cauda ser branca (bem ilustrada em Marques et al. 2001, p. 110). A parte final da cauda é escura nos adultos.

 

Entre as jararacas encontradas como vítima de tráfego, na relação numérica jovens / adultos, a média foi de 0,54. A relação ficava muito acima desta média no período setembro-outubro e no mês de março (ver Tabela 1).

 

Tabela 2. Bothrops jararacuçu (jararacuçu): relação exemplares juvenis / adultos entre as vítimas de tráfego encontradas no litoral norte do Paraná, no período de 2005 a 2018.

Estação Verão Outono Inverno Primavera Total
Mês Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez
Número de exemplares juvenis (compr. 25-40 cm) [A] 0 1 1 2 1 0 1 0 2 1 0 1 10
Número de exemplares adultos (compr. 50-135 cm) [B] 1 0 0 4 4 1 2 1 3 3 1 3 23
[A/B] 0     0,5 0,25 0 0,5 0 0,66 0,33 0 0,33 Média:

0,43

 

Entre as jararacuçus encontradas como vítima de tráfego, na relação numérica jovens / adultos, a média foi de 0,43. A relação ficava acima desta média em abril, julho e, particularmente, setembro (Tabela 2).

 

Tabela 3. Chironius fuscus (cobra-cipó): relação exemplares juvenis / adultos entre as vítimas de tráfego encontradas no litoral norte do Paraná, no período de 2004 a 2018.

Estação Verão Outono Inverno Primavera Total
Mês Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez
Número de exemplares juvenis (compr. 35-54 cm) [A] 0 3 2 3 1 4 1 0 0 0 0 0 14
Número de exemplares adultos (compr. 80-140 cm) [B] 3 1 2 2 1 1 0 2 1 2 2 2 19
[A/B] 0 3 1 1,5 1 4   0 0 0 0 0 Média:

0,74

 

Entre as cobras-cipó (C. fuscus) encontradas como vítima de tráfego, na relação numérica jovens / adultos, a média é de 0,74. A relação ficava acima desta média em todo o período de fevereiro a junho (Tabela 3).

 

Tabela 4. Erythrolamprus aesculapii (cobra-coral-falsa): relação exemplares juvenis / adultos entre as vítimas de tráfego encontradas no litoral norte do Paraná, no período de 2004 a 2018.

Estação Verão Outono Inverno Primavera Total
Mês Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez
Número de exemplares juvenis (compr. 25-28 cm) [A] 0 2 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 2
Número de exemplares adultos (compr. 40-85 cm) [B] 1 1 2 5 0 0 1 3 6 1 1 2 23
[A/B] 0 2 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 Média: 0,09

 

 

Entre as cobras-coral-falsa (E. aesculapii) encontradas como vítima de tráfego, na relação numérica jovens / adultos, a média foi de 0,09. A relação ficava acima desta média somente em fevereiro (Tabela 4).

 

Tabela 5. Erythrolamprus miliaris (cobra-d’água): relação exemplares juvenis / adultos entre as vítimas de tráfego encontradas no litoral norte do Paraná, no período de 2003 a 2018.(1)

Estação Verão Outono Inverno Primavera Total
Mês Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez
Número de exemplares juvenis (compr. 15-34 cm) [A] 10 16 18 7 5 1 1 1 2 12 5 4 81
Número de exemplares adultos (compr. 36-101 cm) [B] 22 19 10 4 7 2 0 0 7 14 9 16 111
[A/B] 0,45 0,95 1,8 1,75 0,71 0,5     0,29 0,86 0,56 0,25 Média:

0,73

(1) O meu critério para considerar um exemplar desta espécie como “juvenil” é, além do tamanho reduzido, a presença de uma banda amarela atrás da cabeça (bem ilustrada em Marques et al. 2001, p. 135-136). Essa banda está ausente nos adultos.

 

Entre as cobras-d’água (E. miliaris) encontradas como vítima de tráfego, na relação numérica jovens / adultos, a média foi de 0,73. A relação ficava acima desta média no período fevereiro-abril e em outubro (Tabela 5).

 

Tabela 6. Sibynomorphus neuwiedi (dormideira): relação exemplares juvenis / adultos entre as vítimas de tráfego encontradas no litoral norte do Paraná, no período de 2004 a 2018.

Estação Verão Outono Inverno Primavera Total
Mês Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez
Número de exemplares juvenis (compr. 15-46 cm) [A] 1 1 2 3 1 1 1 3 4 4 3 0 24
Número de exemplares adultos (compr. 50-96 cm) [B] 4 2 5 5 0 1 1 3 7 12 6 7 53
[A/B] 0,25 0,5 0,4 0,6   1 1 1 0,57 0,33 0,5 0 Média:

0,45

 

Entre as dormideiras (S. neuwiedi) encontradas como vítima de tráfego, na relação numérica jovens / adultos, a média é de 0,45. A relação ficava acima desta média no período de abril a setembro (Tabela 6).

 

Tabela 7. Spilotes pullatus (caninana): relação exemplares juvenis / adultos entre as vítimas de tráfego encontradas no litoral norte do Paraná, no período de 2004 a 2018.

Estação Verão Outono Inverno Primavera Total
Mês Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez
Número de exemplares juvenis (compr. 60-99 cm) [A] 0 1 2 1 2 0 0 0 0 1 1 1 9
Número de exemplares adultos (compr. 120-210 cm) [B] 4 5 2 1 0 1 0 0 4 0 2 1 20
[A/B] 0 0,2 1 1   0 0 0 0   0,5 1 Média:

0,45

 

Entre as caninanas encontradas como vítima de tráfego, na relação numérica jovens / adultos, a média é de 0,45. A relação ficava muito acima desta média em dezembro e nos meses de março e abril (Tabela 7).

 

Tabela 8. Xenodon neuwiedii (boipeva): relação exemplares juvenis / adultos entre as vítimas de tráfego encontradas no litoral norte do Paraná, no período de 2003 a 2018.

Estação Verão Outono Inverno Primavera Total
Mês Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez
Número de exemplares juvenis (compr. 19-26 cm) [A] 1 2 1 0 0 2 2 1 0 0 0 1 10
Número de exemplares adultos (compr. 33-73 cm) [B] 3 3 3 2 3 1 0 2 2 1 1 2 23
[A/B] 0,33 0,67 0,33 0 0 2   0,5 0 0 0 0,5 Média:

0,43

 

Entre as boipevas (X. neuwiedii) encontradas como vítima de tráfego, na relação numérica jovens / adultos, a média é de 0,43. A relação ficava significantemente acima desta média em fevereiro e no período junho-julho (Tabela 8).

 

Como se vê, para estas oito serpentes comuns na APA, os exemplares jovens são relativamente mais frequentes entre a metade do verão e o início da primavera.

 

Finalizando, gostaria de sugerir aos herpetólogos profissionais o seguinte: a) que exijam prazos maiores para a execução dos seus levantamentos; b) que usem o tempo disponível para envolver no levantamento pessoas residentes da área de estudo que mostrem vontade de colaborar e que valha a pena treinar para esse fim.

 

REFERÊNCIAS

Barbo, F.E. 2012. Biogeografia histórica e conservação das Serpentes na Floresta Pluvial Atlântica Costeira do Brasil. Thesis, Ph.D., Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, São José do Rio Preto, SP. 155 pp.

Costa, H.C. & R.S. Bérnils. 2015. Répteis brasileiros: Lista de espécies 2015. Herpet. Brasil. 4(3): 75-93.

FGBPN (Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza). 2011. Plano de manejo da Reserva Natural Salto Morato – Guaraqueçaba, PR, Vol. I + II. FGBPN, Curitiba.

Marques, O.A.V., A. Eterovic & I. Sazima. 2001. Serpentes da Mata Atlântica. Guia ilustrado para a Serra do Mar. Edit. Holos, Ribeirão Preto. 184 pp.

Meijer, A.A.R. de. 2017. Cartas da Mata Atlântica: histórias da natureza do litoral paranaense. Vol. I (As cartas), pp. 1-500 pp.; Vol. II (Bibliografia, Apêndices), pp. 1-620. Edição do autor, Guaraqueçaba.

Morato, S.A.A. 2005. Serpentes da Região Atlântica do Estado do Paraná, Brasil: diversidade, distribuição e ecologia. Thesis, Ph.D., Universidade Federal do Paraná (Ciências Biológicas), Curitiba. 195 pp.

SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental). 2005a. Plano de Manejo da Reserva Natural Rio Cachoeira – Antonina, PR, Vol. I + II. SPVS, Curitiba.

SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental). 2005b. Plano de Manejo da Reserva Natural Serra do Itaqui – Guaraqueçaba, PR, Vol. I + II. SPVS, Curitiba.

SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental). 2012. Revisão dos Planos de Manejo das Reservas Naturais Morro da Mina, Rio Cachoeira e Serra Itaqui – Paraná. SPVS, Curitiba. 296 pp.

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