Carta 202. No auge da estação das borboletas


(André de Meijer, 08/05/2018)

Uma especialista curitibana em determinada ordem de insetos, numa entrevista publicado há dois meses na Folha de São Paulo observou: “Em pesquisa, se você começa a divagar, é muito difícil produzir algo bom”.

Se eu nunca tivesse “divagado”, seria somente especialista em cogumelos e teria chegado à “idade de sabedoria” sabendo pouco sobre as aves, plantas e borboletas que me circundam, e as mutucas que incomodam e que, na realidade, são mais visíveis no dia-dia do que os cogumelos. Teria continuado a publicar artigos científicos para o público restrito de micólogos: textos não atraentes para um público não especializado.

Após de muitos anos de dedicação exclusiva aos cogumelos, em 1984 resolvi gastar um período da minha vida na aprendizagem sobre as aves da região. Em retrospecto posso lhes garantir que esta tem sido uma das melhores decisões que tomei na vida! Quando, em 1987, voltei a me dedicar exclusivamente aos fungos, logo percebi que o prazer de estar na floresta tinha se dobrado. Pois, enquanto manteve o olhar dirigido para baixo, buscando fungos, ouvia as vocalizações ao meu redor e sabia quais espécies de aves estavam me espiando do seu esconderijo. Nem precisa levantar o olhar para procurá-las: conhecia o seu comportamento e a sua plumagem de cor.

Alguns anos após a virada do milênio, para mim, estrangeiro sem ligação a uma instituição científica, pela nova legislação não tinha mais o direito de fazer coleta. Estudar um cogumelo sem coleta-lo é impossível, pois o material tem de ser levado ao microscópio e, quando demonstra ser uma espécie rara ou até nova para a ciência, tem que ser depositado numa coleção de referência, como prova e para possibilitar pesquisas futuras. O que eu então poderia fazer? Decidi transformar o mal num bem e comecei a me dedicar a grupos que não necessitam tanto a coleta e preservação do material, por estarem razoavelmente bem conhecidos. A partir de então fui gradualmente adquirindo conhecimento sobre répteis e anfíbios (aproveitando as vítimas de tráfego, assim não havendo necessidade de coleta), plantas e borboletas dos meus arredores. E aconteceu o seguinte: como consequência do conhecimento acumulado desta maneira, o meu prazer de estar na natureza se multiplicou!

Um professor universitário, como a pessoa a quem me referi no primeiro parágrafo, é incentivado a se manter fiel ao grupo de especialização através de uma ininterrupta sequência de alunos que pedem a sua orientação: pessoas que o estimem pela experiência e reconhecem o seu tremendo valor. Já que eu não estou ligado a universidade (sou autodidata), o “sistema” nem como co-orientador me admite. Seria possível, em princípio, algum orientador da área de micologia incentivar um aluno de pós-graduação a me convidar para consultoria e coautoria de algumas publicações da tese. Mas até hoje isto nunca aconteceu.(a)

Ninguém é psicologicamente autossuficiente. Somos seres sociais e criamos nossa autoestima à base do reconhecimento recebido de outras pessoas. Já que eu não tenho alunos, que poderiam me passar a ideia que tenho alguma utilidade, eu tive que procurar minha valorização em outro ambiente. Assim, em 2005 iniciei como experimento a série de “Cartas da Mata Atlântica“. Graças ao retorno positivo recebido de vários leitores, acabei recebendo a dose de reconhecimento que preciso para manter o ânimo e o estimulo de continuar escrevendo. A todos os leitores que, ao longo destes treze anos, têm se dado o trabalho de reagir construtivamente: a minha imensa gratidão!

O AUGE DO AUGE

Em Curitiba o auge da estação das borboletas ocorre no meio do outono, apesar de um grupo específico, a subfamília Pyrginae, ter o seu apogeu um pouco antes: no início do outono.

Faz tempo que não chove na região metropolitana e para as borboletas este tempo seco, ensolarado e de temperaturas amenas, tem sido perfeito. Assim, neste momento dá para ver borboletas em qualquer lugar. A maior riqueza ocorre em bosques e parques com a presença a plena luz de alguma planta cujas flores as atraem. As espécies neste momento mais procuradas pelas borboletas nectarívoras pertencem quase todas à família das asteráceas e quatro delas (uma exótica e três nativas) foram incluídas no Apêndice 1. Agora é possível ver até vinte espécies de borboletas numa única planta florida, uma situação inimaginável em qualquer outra estação do ano.

Na aproximação da época das geadas, o Departamento de Parques e Praças da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, costuma substituir nos canteiros das praças e parques e nas floreiras das ruas, as plantas ornamentais anuais do verão por espécies que resistem ao frio, como Dianthus sp. (cravina; Caryophyllaceae), Petunia sp. (petúnia; Solanaceae) e Viola sp. (amor-perfeito; Violaceae). Da primavera ao outono, as plantas anuais mais usadas pela prefeitura incluem Begonia sp. (begônia; Begoniaceae), Impatiens hawkeri (beijo-pintado; Balsaminaceae), Salvia splendens (sangue-de-adão; Lamiaceae), Torenia fournieri (amor-perfeito-do-verão; Linderniaceae) e Tagetes erecta (cravo-de-defunto; Asteraceae).

As flores da maioria destas espécies não são, ou são muito pouco procuradas por borboletas, com a notável exceção da última. O cravo-de-defunto, originário do México, é extremamente atraente para as borboletas, o que se percebe particularmente no outono. Neste exato momento é possível encontrar até vinte espécies de borboletas num só canteiro de cravo-de-defunto, sob condição que o local não é muito afastado de uma floresta (veja Apêndice 1). Mesmo assim, até no centro de uma metrópole como Curitiba se vê muitas espécies de borboletas junto a esta flor. Por exemplo, na Praça Tiradentes, naquele lindo canteiro em frente da entrada da catedral, encontrei em duas breves visitas deste fim de semana, nada menos que sete espécies de borboletas, representadas por um total de nove exemplares.(b)

Entre as plantas perenes (sub-)arbustivas plantadas pela prefeitura nas praças, a mais atraente para borboletas e também para beija-flores é Lantana camara (cambarazinho; Verbenaceae). Nos canteiros ocupados por esta espécie em frente ao Teatro Guaíra, na Praça Santos Andrade, vi este fim de semana dez espécies de borboletas.(c) Aliás, fiquei decepcionado ao ver que naquela mesma praça, o cravo-de-defunto que enfeitava os canteiros em frente ao prédio da UFPR, já foi retirado pela prefeitura (deixando a terra nua, no aguardo do plantio das flores do inverno). Gostaria de sugerir ao Departamento de Parques e Praças que, nos próximos anos, não mais remova o cravo-de-defunto antes da planta ter sofrido a primeira geada, pois até aquele momento continuará sendo visitada por uma legião de borboletas.

Pessoal, saiam das suas casas e APROVEITEM a atual riqueza de borboletas, enquanto durar, pois, como sabem, a primeira geada logo vai chegar!

(a) Já que um orientador se torne automaticamente coautor do orientado, por quê um consultor não mereceria este direito também? O consultor não tem que dispender grande parte do seu tempo em sala de aula e, assim, pode gastar muito mais horas em campo e atrás do microscópio do que qualquer professor orientador.

Apenas uma vez uma pós-graduanda brasileira (L. T.-P.) me convidou espontaneamente para coautoria em alguns artigos da sua tese de doutorado, uma oportunidade pela qual estou muito grato.

(b) As visitas aconteceram em 05/05/2018 (15h10 – 15h20) e 06/05/2018 (10h35 – 10h55) e as borboletas vistas foram: Urbanus teleus (1 exemplar), Pterourus scamander (3), Phoebis philea (1 fêmea), Hesperocharis anguitia (1), Methona themisto (1), Actinote surima (1) e Dryas iulia (1). Aliás, reparem na linda nova estátua no centro deste canteiro e representando um índio em tamanho natural, junto com o seu cachorro. Foi produzido pelo escultor Elvo Benito Damo e colocado ali em março de 2018.

(c) As visitas aconteceram em 05/05/2018; 14h – 14h30) e 06/05/2018 (11h05 – 11h35) e as borboletas vistas foram: Urbanus teleus (3 exemplares), U. dorantes (1), Pyrisitia sp. (1), Leptophobia aripa (1), Theclinae sp. (1), Methona themisto (1), Dione juno (1), Dryas iulia (1) e duas espécies da Hesperiinae.

Apêndice 1. Alguns pontos no município de Curitiba com concentração de borboletas adultas no meio do outono de 2018.

Borboleta

Localidade exata; espécie de flor visitada pelas borboletas;

número de exemplares da planta envolvidos no inventário;

data e horário; número de exemplares de borboletas

Parque Tingui,
entre o portão de entrada e a Memorial Ucraniano;
bairro São João

Parque Regional do Iguaçu

Parque do Centenário da Imigração Japonesa

Setor Pesqueiro

Setor Zoológico
Bairro Uberaba Avenida Marechal Floriano Peixoto, ao lado oeste do viaduto sobre a estrada de ferro; bairro Boqueirão Avenida Marechal Floriano Peixoto, na margem oeste da avenida;
bairro Boqueirão
ponto inicial da Rua João Micheletto, ao lado do viaduto sobre a estrada de ferro;
bairro
Alto Boqueirão
Tagetes erecta (cravo-de-defunto, tagetes-anão, cravo-amarelo) Disynaphia sp. (aff. multicrenulata) (eupatório) Chromolaena
laevigata (cambará-falso, eupatório)
Bidens alba (picão-preto-branco)
Espécie exótica (originário do México), plantada;
em canteiros; a pleno sol
Espécie nativa; ocorrência espontânea; a pleno sol; estudado dois exemplares vizinhos Espécie nativa;
ocorrência espontânea; a pleno sol; estudado dois exemplares 20 m distantes um do outro
Espécie nativa;
ocorrência espontânea; a pleno sol; estudado grupo denso de plantas vizinhos
03/05/2018,
14h30 – 15h30
06/05/2018, 12h3- – 14h20 04/05/2018,
12h30 – 13h
04/05/2018,
13h15 – 13h45
29/04/2018,
12h – 13h
Família Subfamília Espécie
Hesperiidae Pyrginae Urbanus dorantes

alguns

1

1

Urbanus procne

alguns

Urbanus teleus

1

alguns

1

alguns

1

Achlyodes mithridates

1

Heliopetes cf. alana

1

1

Xenophanes tryxus

1

1

Gênero não identificado

1

Hesperiinae Não identificada

± 3 espécies

± 3 espécies

2 espécies

± 3 espécies

± 3 espécies

Papilionidae Papilioninae Pterourus scamander

2

1

1

Pieridae Coliadinae Colias lesbia

1

Phoebis philea

2

1

Pyrisitia sp.

alguns

1

Pierinae Pseudopieris nehemia

1

2

Hesperocharis anguitia

alguns

1

2

2

1

Lycaenidae Polyommatinae Leptotes cassius

1

Riodinidae Riodininae Riodina lycisca lycisca

3

Emesis sp.

1

1

Nymphalidae Danainae Danaus erippus

1

1

Ithomiinae Dircenna dero

1

Biblidinae Marpesia petreus

2

Nymphalinae Vanessa braziliensis

1

2

1

1

1

Vanessa myrinna

1

Anartia amathea

alguns

1

1

alguns

Junonia evarete

alguns

alguns

Siproeta epaphus

1

Chlosyne lacinia

1

alguns

Eresia lansdorfi

1

Tegosa claudina

1

1

Telenassa teletusa

1

Limenitidinae Adelpha sp.

1

Heliconiinae Actinote surima surima

1

Actinote sp. A

1

1

Agraulis vanillae

1

1

Dione juno

1

2

3

1

Dryas iulia

1

2

alguns

alguns

Philaethria wernickei

alguns

1

2

Eueides aliphera

1

alguns

1

alguns

Eueides isabella

1

1

Heliconius erato

1

Heliconius ethilla

1

Total de espécies (n=38):

± 21

± 17

14

± 17

± 27

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