Carta 201. Sobre sexo, evangelização e o destino da Arca


(André de Meijer, 03/05/2018)

Há exatamente trinta anos escrevi um trabalho que deu um título bem extenso: “O Parque Regional do Iguaçu, Curitiba. Os seus problemas ambientais e sugestões para resolvê-los”. O conteúdo se baseava na pesquisa desenvolvida naquele parque nos períodos de 1979-1980 e 1984-1987 e que tinha consistido de levantamentos completos de macrofungos, aves e plantas lenhosas. Aquele trabalho, de umas cinquenta páginas, em 1987 foi amplamente distribuído através de xerografia, mas nunca foi publicado.

Hoje, o seu conteúdo está começando a adquirir valor histórico por várias razões e uma delas é o fato de algumas aves então encontradas, se extinguiram na área, enquanto outras que estavam ausentes, vieram a habitar a área.

Decidi, então, que vou publicar aquele velho trabalho, em conjunto com outro manuscrito inédito sobre o parque, tratando das aves limícolas e finalizado em 1988. Assim, há quase um ano estou mensalmente revisitando o Parque Regional do Iguaçu (PRI), para complementar os meus dados antigos com um novo levantamento das plantas vasculares (num período de trinta anos algumas plantas podem se extinguir e outras podem aparecer), desta vez incluindo também as espécies herbáceas, além de fazer um inventário das borboletas, prestando especial atenção às plantas que alimentam os adultos.

Também revisito aquela região por simples prazer, pois a sensação de se encontrar numa região da qual você conhece cada canto e cada organismo que ali vive é algo indescritível. A expressão “conhecer é amar” engloba uma verdade absoluta!

Pois não se esquece: saber o nome de uma espécie forma a porta de entrada para uma vastidão de informações, ainda mais nesta era da Internet.

Hoje vou lhes apresentar dois problemas ambientais adicionais para o PRI, não tratados no meu manuscrito amarelado, pela razão que estes problemas naquela época ainda não existiam.

1) Sexo selvagem (SS)

Há trinta anos a doença de AIDS tinha recém surgido e o uso de camisinhas estava aumentando. Mas o produto ainda não tinha se tornado a fonte de poluição ambiental que hoje está sendo.

Para os adeptos do SS, o ambiente predileto para pratica-lo é a natureza selvagem, que em Curitiba pode ser encontrado nas florestas do vale do rio Iguaçu. Assim, não é de surpreender que aquela turma tem escolhido como ponto do encontro um fragmento de floresta no canto mais afastado do Parque Náutico, próximo a foz do rio Belém e ao lado da Sanepar. O chão daquela floresta se encontre forrada de camisinhas e as suas embalagens. (Entre nós, o sexo praticado ali deve ser de alta velocidade, já que a floresta de várzea se encontre infestada de pernilongos bem graúdos).

A presença de toda esta plástica colorida oferece uma vista nada agradável. Sei que a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMMA) está consciente do problema e já tomou algumas providências. Como medida adicional gostaria que efetuassem uma colheita de lixo e, nos pontos da maior densidade de camisinhas por metro quadrado, colocassem uma lixeira e colada nela o adesivo “Sorria, você está sendo filmado!”

2) A evangelização dos bichos

Talvez você não acredite que há gente que busca evangelizar a flora e a fauna. Então faça o seguinte: dirija-se, em qualquer dia da semana, pela Rua João Micheletto (bairro Boqueirão), em direção ao Zoológico de Curitiba. Aproximadamente duzentos metros antes de você passar o Acantonamento do Zoológico, pare e escute. Vindo do interior da vasta floresta ao lado esquerdo da rua, haverá uma voz poderosa proclamando em uníssono a palavra de Deus.

Há alguns dias, ao passar por este local e novamente ser confrontado com esta situação, não mais consegui me conter e me embrenhei naquele mato, muito chateado. Ao encontrar o gritador perguntei:

– Por que o senhor faz tanto barulho, incomodando os vizinhos e assustando os animais?

Sem hesitar, ele retrocou, divinamente inspirado:

– Porque os vizinhos necessitam e os animais adoram!

Tivemos um ponto de vista radicalmente oposto. Ele não conseguiu se explicar, ou eu não o entendi. Mas creio que se trata do seguinte. Para fazer um bom papel no culto do templo, os fiéis se embrenhem na floresta para, sem outras testemunhas visuais senão árvores e pica-paus, perder a timidez e aprender a soltar a voz. Desta forma, aquele trecho da floresta tem se tornado campo de treinamento para algumas pequenas frações da igreja pentecostal. Os seus fiéis entram no mato sozinho e, enfrentando árvores e a fauna selvagem, acabam adquirindo força e coragem.

Eu passo lá uma vez por mês e sempre há alguém gritando e proclamando. Vizinhos me contaram que o fenômeno surgiu há três anos e que à noite o barulho ainda aumenta.

Apesar de ser um problema de poluição sonora, talvez não seja algo a ser resolvido pela força da lei. Afinal de contas, estas pessoas estão muito bem-intencionadas! Assim, sugiro à SMMA que envie ao local alguns educadores ambientais muito inteligentes e perseverantes, que não se deixem derrotar. Quem sabe, em algumas semanas talvez conseguirão devolver a paz àquela região.

“A única pessoa que precisa saber da sua oração é Deus! A oração que agrada ao Senhor é aquela que é feita no silêncio do coração.” (Profeta tal, capítulo tal, versículo tal).

Diário do bordo

Tenho continuado o meu sobe-desce pelo rio Iguaçu ao bordo da velha Arca do Iguaçu. Pois sim, aquele lindo barco construído há 35 anos pela prefeitura de Jaime Lerner, acabou se tornando um Holandês Voador.(a) Coloquei a minha cadeira de balanço no seu convés de cima, donde observo a paisagem.

Nestas últimas semanas, o visual desta região passou por uma mudança impressionante. No início de abril, toda o vale do Iguaçu se encontrava em tintas violeta e lilás, pelas flores de vassouras, cambarás e eupatório. Localmente havia a amarela viva da arnica (Solidago chilensis). Mas agora toda essa florada acabou e as referidas plantas estão carregadas de sementes que, aos poucos, estão sendo carregadas pelo vento. Apenas uma espécie continua em plena florada: a magnífica Campuloclinium purpurascens, que se distingue das outras por preferir um ambiente bem úmido.

Assim, durante um mês inteiro, as borboletas nectarívoras tiveram banquete muito variado. E agora, com tudo acabado, sem reclamar elas voltaram para o seu prato tradicional, no qual o néctar do picão-preto-branco (Bidens alba) constitui o ingrediente principal. Sim, esta planta é uma recordista na atração de borboletas: no Parque Regional do Iguaçu (PRI) tenho visto 37 espécies de borboletas visitando as suas flores, enquanto no litoral norte, onde tenho observado as borboletas por muito mais tempo (doze anos), este número alcançou 94 espécies (sem contar as Hesperiinae, um grupo não acessível aos amadores).

Assim, quem quiser atrair borboletas para seu jardim, pode espalhar as sementes do picão-preto-branco! Você terá borboletas lhes visitando em todos os meses do ano.

Este sobe-desce da Arca tem sido sensacional para o seu único passageiro. Estou vendo aves na PRI que há trinta anos, quando a minha aventura começou, não ocorriam no parque ainda. O tapicuru é o exemplo maior: hoje ele está presente em grande número por toda parte, mas principalmente nos lamaçais dos rios muito poluídos. Outros exemplos de novatas aquáticas são a marreca-cricri e a parecida marreca-toicinho.

Quando eu vi o pernilongo-de-costas-brancas pela primeira vez na Reserva do Cambuí (RdC), em agosto de 1988, tratou-se apenas do segundo registro da espécie no município (o primeiro tinha sido feito em 1959; Straube et al. 2014), mas hoje ela está abundante em todos os rios poluídos da região.

Esses dias tive a maior surpresa! Quando a Arca navegou ao lado da RdC, escutei da minha cadeira o canto inconfundível do neinei! Tenho residido na RdC de 1979 a 2000 e em todo este período nunca escutei esta espécie ali! Para quem não conhece este pássaro, o neinei é extremamente parecido com o bem-te-vi, mas facilmente distinguível pela voz. Um canta “bem-te-vi bem-te-vi beeeeem-te-vi”, enquanto o outro “neinei neinei neinei”.

Ultimamente tenho escutado o neinei em outras partes do PRI também. Segundo Straube et al. (2014) o primeiro registro do neinei no PRI data de 2004 e desde então tem sido ouvido ali muito regularmente.

Veio à minha cabeça uma dúvida: será que, na época em que residi na RdC, eu tive um “bloqueio psicológico” pelo qual eu não pude admitir a ocorrência da espécie ali? Para obter a resposta consultei a minha pilha de transcrições de vocalizações não-identificadas feitas naquela época. Felizmente, não encontrei qualquer anotação de uma vocalização procedente da RdC e que poderia ter representado o neinei.

Em Curitiba, o primeiro registro do neinei foi feito em 1982, no bosque de Capão da Imbuia e a partir de então ele foi escutado também em muitos outros bosques e bairros da cidade (Straube et al. 2014). Será que a espécie é uma daquelas que tem conquistado a cidade somente nos últimos 35 anos? O que vocês acham?

(a) Não estou brincando. Procure na Internet e você não encontrará mais nenhuma imagem deste lendário barco. Há algumas informações ao seu respeito no seguinte documento: https://www.scribd.com/document/177302289/A-Historia-Do-Zoologico-Municipal-de-Curitiba

NOTA AVULSA

Há nove dias distribuí uma pequena mensagem com o título “Uma beleza em Guaraqueçaba”, e na qual mencionei de ter observado, em 23/04/2018 (há dez dias), o macho de uma espécie de Lyropteryx.

Há quatro anos a mesma borboleta tem sido encontrada na Floresta Estadual do Palmito, no município de Paranaguá. Então, Leviski et al. (2016) a comunicaram como “Lyropteryx sp.”, mas posteriormente conseguiram identificar a espécie: Lyropteryx lyra (Ricardo Russo Siewert, in litt. à André de Meijer de 24/04/2018).

REFERÊNCIAS

Leviski, G.L., L. Queiroz-Santos, R.R. Siewert, L.M.G. Salik, M.M. Casagrande & O.H.H. Mielke. 2016. Butterflies (Lepidoptera: Papilionoidea) in a coastal plain area in the state of Paraná, Brazil. Trop. Lepid. Res. 26(2): 62-67.

Straube, F.C., E. Carrano, R.E.F. Santos, P. Scherer-Neto, C.F. Ribas, A.A.R. de Meijer, M.A.V. Vallejos, M. Lanzer, L. Klemann-Júnior, M. Aurélio-Silva, A. Urben-Filho, M. Arzua, A.M.X. de Lima, R.L.M. Sobânia, L.R. Deconto, A.Â. Bispo, S. de Jesus & V. Abilhôa. 2014. Aves de Curitiba. Coletânea de registros, Ed. 2. Hori Consultoria, Curitiba. (Hori Cadernos Técnicos 9). 528 pp. Online: <https://ia902705.us.archive.org/19/items/2014HCT9AvesDeCuritiba2Ed/2014%20HCT-9%20Aves%20de%20Curitiba%202%20ed.pdf>

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