Historinha da aldeia natal 3


2017/05/18

Facebook:

O parente carente se apresenta:

– Vamos almoçar em tal lugar?


Inscrevi-me no Facebook em 2012, aceitando o convite de amizade feito por um velho e sábio albatroz; veja https://www.facebook.com/wisdomthealbatross e leia Pattison & Harvill 2012.

Explorando o Facebook descobri que, através dele, muitos entes perdidos de vista podem ser redescobertos.

Com a minha emigração para o Brasil, em 1978, desapareceu o contato com a maioria dos meus conhecidos na terra natal, com a exceção de membros da família. O que sobrou daquele passado remoto são as lembranças, um bom número de fotos da família e apenas algumas fotos de não parentes. As últimas mostram:

(a) minha turma do penúltimo ano da escola católico-romano do primeiro grau para rapazes “São José”, em 1968; (b) eu com alguns colegas da turma do quarto ano do segundo grau do colégio católico-romano “São Elígio”, na viagem escolar a Paris, em 1974; (c) o grupo da nossa comunidade alternativa “Tidorp”, em 1977: em uma das fotos tomamos banho pelado no mar e em outra fazemos meditação.

Destas quatro fotos, estou aqui incluindo a primeira, que mostra os rapazes com os quais me encontrei quase diariamente desde a pré-escola e os quais, na sua maioria, continuaria encontrando até o fim do segundo grau. Todos estes rapazes nasceram entre setembro de 1956 e agosto de 1957, em IJzendijke, até então ainda um município. Nesta foto estamos com dez/onze anos. Num momento de sabedoria do passado escrevi no verso da foto os nomes, para me prevenir de um esquecimento posterior. Na Tabela 1 são apresentadas algumas informações básicas a respeito dos rapazes na foto.

Tabela 1. Informações sobre os alunos na foto de 1968: quinto (penúltimo) ano da Escola católica-romana de Primeiro grau para rapazes “São José”; IJzendijke, Holanda.

Alunos (listados da esquerda para direita) Data de nascimento Dato do falecimento Atividade profissional do pai Ensino secundário posterior (todas essas escolas situadas na cidade de Oostburg) Ensino terciário / cidade (na Holanda, a menos que indicado o contrário) Última profissão / cidade do trabalho (na Holanda, a menos que indicado o contrário) Cidade da última residência (na Holanda, a menos que indicado o contrário) Inscrição no Facebook (1) Aceitação da minha pedida de “amizade-Facebook” (2)
A) última fileira
professor Lips …/…/… …/…/… IJzendijke
Hans Wijffels …/…/… colaborador administrativo na cooperativa agrícola NCB-CHV NCB-CHV / IJzendijke São Elígio (nível VWO, depois HAVO) Escola Superior de Tecnologia / Delft … / Budapeste, Hungria Tilburg

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Ruud (“Rudy”) de Meijer 05/02/1957 ? São Elígio (nível MAVO) Ensino Superior Profissionalizante de Corretagem corretor / Sas van Gent IJzendijke

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Frank Calon …/…/… trabalhou na fábrica para açúcar de beterraba (contratava os produtores de beterraba-de-açúcar) / Sas van Gent São Elígio (nível HAVO) Escola Superior de Agronomia ‘Larenstein’ / Deventer ? ?

Ronald de Milliano …/…/… lavrador / IJzendijke São Elígio (nível HAVO) Escola Superior de Agronomia ‘Den Bosch’ / ‘s-Hertogenbosch ligado à companhia de seguros “Direção Central Achmea” IJzendijke

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Jan Verdonk 03/09/1956 ? Escola Técnica ? ? ?

?

Peter Groosman …/…/… ferreiro / IJzendijke São Elígio (nível MAVO) ? ? ?

?

Peter Aers …/…/… caminhoneiro São Elígio (nível HAVO) ? empresa na área da Assistência Social / Alkmaar Alkmaar

++

+

B) segunda fileira
Paul Lips …/…/1956 professor do ensino primário (6º ano e primeiro semestre do 5º ano, na escola São José) / IJzendijke São Elígio (nível MAVO) ? ? ?

Willy van Leeuwen 23/07/1957 21/02/2014 ? São Elígio (nível HAVO) ? empresa Van Leeuwen Consultoria BV / IJzendijke IJzendijke

++

+

Wilfried Aersens …/…/… ? São Elígio (nível HAVO) ? colocador de tapetes na empresa Verdegem / Oostburg Breskens

Benny Ocke 26/11/1956 trabalhou na fábrica cooperativa de laticínios / IJzendijke São Elígio (nível MAVO) ? empresa The Dow Chemical / Terneuzen IJzendijke

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André de Meijer 02/06/1957 lavrador / IJzendijke São Elígio (nível HAVO) Escola Superior de Agronomia ‘Dordrecht’ / Dordrecht pesquisador da natureza / estado do Paraná Guaraqueçaba, Brasil

++

Johan Brouwers 16/03/1957 08/02/2013 ? Escola Técnica ? empresa SOKA De Blide / Breskens ?

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+

André van de Merode …/…/… padeiro / IJzendijke Escola Técnica ? padeiro / IJzendijke IJzendijke

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Robby de Wilde …/…/… ? Escola Técnica ? ? ?

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C) primeira fileira
Walter Hamers 23/02/1957 professor do ensino primário (4º ano e primeiro semestre do 5º ano, na escola São José) / IJzendijke São Elígio (nível HAVO) Academia Pedagógica / Goes ? ?

+

Luc Hamers

(Luc e Walter são gêmeos)

23/02/1957 São Elígio (nível HAVO) Academia Pedagógica / Goes Escritório de Administração Hullu & Cornelis B.V./ IJzendijke IJzendijke

++

+

Ronny van Poucke (3) 10/02/1957 03/10/2016 contratante na construção civil / IJzendijke São Elígio (nível MAVO) Escola para Futebol Profissional / Bruxelas, Bélgica atacante no clube de futebol RSC Anderlecht / Bruxelas, Bélgica IJzendijke

++

+

Ronald Dellaert 28/10/1956 ? São Elígio (nível MAVO) ? empresa The Dow Chemical / Terneuzen IJzendijke

++

+

Walter van de Bunder 17/02/1957 10/03/1994 contratante na construção civil / IJzendijke Escola Técnica ? pedreiro / IJzendijke IJzendijke
Eddy Driessens …/…/… ? Escola Técnica ? ? ?

?

Hugo Willems …/…/… …/…/… açougueiro / IJzendijke São Elígio (nível MAVO) ? açougueiro / IJzendijke IJzendijke

(1) ++ = inscrito até 2013/10/22; + = inscrito até 2017/03/24; – = ainda não inscrito (2017/03/24).

(2) + = aceito; – = ignorado.

(3) Veja: https://nl.wikipedia.org/wiki/Ronny_van_Poucke

Esta foto foi feita no segundo semestre do quinto (penúltimo) ano letivo e, julgando o vestuário (quase todos os rapazes estão com blusa de lã, com uma camiseta de algodão por baixo e ainda não calçam sandálias, e sim sapatos fechados) foi no fim do inverno ou começo da primavera: abril ou início de maio.

No mesmo dia foram fotografados, com o mesmo fundo (a sala de aula da professora Verdegem) e o mesmo posicionamento em três fileiras escaladas, também as turmas do (i) meu irmão mais velho, Herman, que estava no sexto (último) ano, também com professor Lips, (ii) meu primo Ettiénne, que estava no terceiro ano, com professor Sinack, e (iii) o meu irmão Alex, então no segundo ano, também com professor Sinack.

Sobre a aldeia natal de IJzendijke posso dizer que como assentamento foi fundado na Idade Média e em 1816 obteve o direito oficial de se chamar “cidade”.

Em 1970, o município de IJzendijke foi inserido no município de Oostburg e, em 2003, por sua vez o município de Oostburg foi inserido no município de Sluis. Atualmente com quase 24 mil habitantes distribuídos sobre uma superfície de 307 km2, Sluis é o município da menor densidade populacional da Holanda. Além de algumas aldeias, o seu território consiste principalmente de área de lavradio, com granjas espalhadas e, em cima dos diques dos pôlderes, com casinhas renovadas que antes pertenciam a trabalhadores rurais (peões).

Já que a aldeia IJzendijke está totalmente circundada de lavouras é surpreendente que na minha turma do primeiro grau se encontravam apenas dois filhos de agricultores (Ronald e eu): 9% do total. Isto de fato forma um grande contraste com as turmas escolares dos meus irmãos Herman e Alex e do primo Ettiénne, nas quais um terço do total era filho de agricultor.

Em 22/10/2013 fiz a primeira tentativa para localizar pelo Facebook os vinte e um colegas desta foto da turma escolar. Na ocasião, dois destes rapazes (Hugo; Walter van de B.) já tinham falecidos e descobri que, do restante, nove pessoas (45%) tinham ingressados no Facebook.

Em 27/03/2017 fiz a segunda tentativa, para ver se desde essa primeira vez outros tinham se tornados membro do clube. Desta forma descobri que no intervalo mais três tinham morrido (Johan; Ronny; Willy) e outros quatro tinham se inscrito no Facebook.

Que triste o fato de cinco destes rapazes (23%) terem morrido ainda antes de chegar aos sessenta anos!

Muito interessante que, desta turma de 22 ex-alunos, dez (45%) permaneceram, ou voltaram a residir, na aldeia natal de IJzendijke.

Até agora não consegui localizar sete pessoas deste grupo. Daquelas encontradas, oito aceitaram o meu convite de “amizade-Facebook”. Com alguns deles foram trocadas pequenas mensagens e feitas perguntas óbvias: casado? filhos? qual a sua profissão? onde reside? Assim se descobre que de fato restam poucos interesses comuns, como consequência dos rumos tão diferentes tomados na vida por cada um de nós. Milan Kundera que, como eu, na idade adulta se mudou para um país com uma cultura muito diferente (ele foi para Paris), experimentou algo parecido no seu reencontro com os colegas da juventude e descreve os seus sentimentos neste processo num livrinho bem legível: L’ignorance, de 2002.

Referência:

Pattison, D. & K. Harvill. 2012. Wisdom, the Midway albatross: surviving the Japanese tsunami and other disasters for over 60 years. Mims House, Little Rock, U.S.A.


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3 pensamentos em “Historinha da aldeia natal

  • Roberto Eber Marchi

    André, boa tarde!
    Tabular resultados é vício e qualidade da nossa formaçao.
    Vou tentar fazer o mesmo com a turma de 1946 no Instituto de Educaçao de Jundiaí, SP
    Um abraço !

  • João Henrique Dittmar Filho

    Boa tarde,
    Interessante puxar pelas lembranças lá do fundo do baú.
    Muito bons os comentários sobre encontrar alguns, mesmo pela Internet.
    O tempo passou e, mesmo conseguindo contatos com os colegas de escola, esses já tem outras vidas e nem sempre retornam as mensagens.
    Se com parentes já é difícil manter contato frequente, imagino como fica essa situação com colegas de escola, cada qual com suas próprias vidas.
    Abraços.