Alegrias naturais do inverno 6


2017/08/11

 


mulungu (Erythrina speciosa) florido e com vagens jovens, a planta ainda sem folhas; Tagaçaba de Cima, Guaraqueçaba (2014/08/09). A florada desta espécie se inicia tipicamente no início do inverno. As flores vermelhas não são visitadas por borboletas, mas são bastante procuradas pelos beija-flores.

 

Já chegamos na metade do inverno de 2017 e até agora houve pouquíssimos períodos de frio no litoral do Paraná. Os períodos com temperatura mínima ≤ 10 ºC (medida na minha varanda, em Tagaçaba Porto da Linha, Guaraqueçaba) foram: 28 de abril (mínima: 10 ºC), 2 de junho (10 ºC), 10 a 12 de junho (5 ºC), 17 a 19 de julho (2 ºC), 21 de julho (8 ºC), 25 + 26 de julho (8 ºC), 1 de agosto (10 ºC) e 7 + 8 de agosto (9 ºC). (Não possuo dados do período de 25 de junho a 16 de julho, quando esteve em Curitiba).

Com tão poucos dias verdadeiramente frios a primavera poderá estar “se adiantando”.

 

Aves

No litoral do Paraná, todas as espécies de sabiá têm um período anual demorado em que não cantam. Desde que me mudei para o litoral, em 2003, tenho todos os anos anotado a data na qual cada espécie de sabiá voltou a cantar. A data média do recomeço do canto tem sido: 20 de agosto para o sabiá-poca
(Turdus amaurochalinus), 21 de agosto para o sabiá-una (T. flavipes) e 25 de agosto para o sabiá-laranjeira
(T. rufiventris). Este ano o sabiá-poca começou a cantar em 27 de julho e o sabiá-una começou em 2 de agosto; ambas muito mais cedo do que o esperado. O sabiá-laranjeiro não voltou a cantar ainda.

A data média para o saci (Tapera naevia) reiniciar a sua conhecidíssima vocalização monótona tem sido 20 de agosto. Neste ano ele começou em 24 de julho!

Até agora nenhuma ave de verão tem retornado da migração, mas neste mês elas podem começar a aparecer. No litoral norte as primeiras espécies a voltar costumam ser Progne tapera (andorinha-do-campo) e Stelgidopteryx ruficollis (andorinha-serradora), a data média da chegada delas (período 2003-2016) sendo 29 de agosto e 3 de setembro, respectivamente. Recomendo que fiquem em alerta, pois, a data mais precoce do retorno de uma ave de verão tem sido 27 de julho: um exemplar de Progne tapera, aqui em Tagaçaba, em 2016.

 

Répteis e anfíbios

Desde que em 2004 comecei a registrar no litoral norte os vertebrados encontrados mortos como vítima de trafego, tenho listado um total de 1368 vítimas. Somente duas espécies têm o total de indivíduos atingidos ultrapassando o número de cem. São Rhinella abei (sapo-cururuzinho) e Erythrolamprus miliaris (cobra-d’água), com 238 e 178 vítimas, respectivamente.

Do sapo-cururuzinho encontra-se vítimas em todos os meses do inverno, já que a espécie continua bastante ativa nesta estação. Mas a cobra-d’água é raramente vista no inverno: para o período de 22 de junho a 21 de setembro tinha encontrado, (período 2004-2016) somente cinco vítimas desta espécie, nas datas de 23 de junho e 06/19/20/21 de setembro. Como se vê, todos estes registros são do início ou do fim da estação. Este ano foi a primeira vez que encontrei vítimas desta espécie no meio do inverno: um exemplar jovem em 31 de julho e outro exemplar jovem em 9 de agosto, ambos no município de Guaraqueçaba.

 

Mutucas

As mutucas fêmeas do gênero Chrysops atacam o alto da nossa cabeça, enquanto as fêmeas das outras espécies preferem as partes baixas do corpo da vítima. Fêmeas adultas de Chrysops varians, uma das mutucas mais numerosas do litoral, estão totalmente ausentes aqui na primeira metade do inverno. Tenho anotado todos os anos a data em que fui atacado pelo primeiro exemplar pós-inverno desta espécie. Este ano fui atacado em 2 de agosto, o que é três semanas antes da data média do primeiro ataque (a média, para o período 2004-2017, é 26 de agosto). Neste momento, uma semana depois, a espécie já está localmente abundante!

Tenho encontrado 32 espécies de mutucas no litoral norte e entre elas a mais numerosa é Tabanus occidentalis. É também a espécie com o período de voo mais extenso: tinha visto as suas fêmeas em todo o período de 31 de agosto a 21 de julho. No entanto, neste inverno de 2017, a espécie continuou ativa ao longo da estação! Este ano os cavalos do município de Guaraqueçaba não tiveram sequer uma semana de sossego!

 

Borboletas

Apesar da prevalência de tempo ensolarado ao longo do último mês de julho, vi apenas 19 espécies de borboletas no litoral norte no referido mês. É um número baixo comparado a minha média para a região (período 2007-2017) que é de 34 espécies de borboletas em julho e 36 espécies em agosto.

 

Plantas vasculares

Neste inverno, no litoral norte choveu somente em 22 de junho, na noite de 17 a 18 de julho e nas madrugadas de 3 e 5 de agosto.

Num inverno seco como este pode haver mais florada do que usualmente ocorre nessa estação.

 

No primeiro decêndio deste mês fiz três caminhadas no litoral norte para anotar todas as espécies de plantas vasculares encontradas floridas, ou com frutos maduros ou esporângios.

Do total de 238 espécies de plantas encontradas férteis nas três caminhadas, 140 são nativas do litoral paranaense, 17 são provenientes de outras partes do Brasil, e o restante, 81 espécies, são exóticas.

Neste momento, as plantas floridas que mais chamam atenção no litoral, pela abundância e pela conspicuidade das suas flores, são: azaleia (Rhododendron simsii), nos jardins, e mentrusto (Ageratum conyzoides) e a melastomatácea Pterolepis glomerata, em pastagens e outros terrenos abertos.

Em 5 de agosto procurei a florada do fel-da-terra (Lophophytum leandri) na floresta atrás da minha casa onde a espécie ocorre, mas não a encontrei. Esta parasita obrigatória de raízes de algumas árvores fabáceas floresce só no inverno. Será que a planta necessita da água da chuva para desenvolver a sua estrutura reprodutiva e faze-la se erguer do chão da floresta?

 

Cogumelos

A orelha-de-pau Tyromyces pulcherrimus, originalmente descrita da Tasmânia, é comum no Paraná. A espécie é bastante chamativa pelo tamanho e cor: os chapéus alcançam 20 cm de diâmetro e sua coloração varia de creme a laranja-avermelhada. Devido ao contexto macio e quebradiço, os corpos frutíferos se decompõem rapidamente e não ultrapassam o inverno. Desde que encontrei esta espécie pela primeira vez há trinta anos, tenho visto ela unicamente no período de setembro a junho. Mas este ano encontrei um corpo frutífero fresco em pleno inverno: 31 de julho, no município de Guaraqueçaba.

Nas três caminhadas referidas vi pouquíssimos cogumelos, como é de se esperar no meio do inverno. Encontrei apenas algumas espécies cujo contexto é firme (Pleurotus djamor) ou rígido (principalmente Pycnoporus sanguineus, Fomitopsis nivosa e Schizophyllum commune). Mas a pequena quantidade de chuva que caiu nos primeiros dias deste mês foi suficiente para fazer surgir no gramado, a partir de 6 de agosto, o tenro cogumelo Conocybe magnispora.

 

Sugiro que você faça um levantamento como este na sua própria redondeza e quem sabe podemos comparar os nossos resultados.


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6 pensamentos em “Alegrias naturais do inverno

  • João Henrique Dittmar Filho

    Como sempre, detalhista.
    Muito bom termos essas tabelas e observações para acompanhar a natureza de cada espécie e, em geral, como o clima muda hábitos de animais e também, de vegetais.
    Aqui em Curitiba, notamos a florada dos Ipês amarelos já em meados de Julho, quando o normal é meados de Agosto.
    A cada ano, as floradas acabam acontecendo mais cedo.

    Abraços.

  • Fábio Chedid

    Caro André,

    É possível afirmar que este foi um dos invernos mais quentes e seco que vc já presenciou aqui no Paraná.?
    E que tal circunstância afeta e altera o comportamento cíclico das espécies?
    Parabéns mais uma carta minuciosa, testemunha de mudança climática e seus efeitos.

  • Diana M. Carneiro Marques

    Fantástico André,
    Estou orientando uns alunos do Projeto Lab Móvel ( UFPR Litoral) sobre ilustração botânica e estamos focalizando especialmente as plantas mais representativas do Parque do Rio da Onça em Matinhos, com vistas à composição de um Guia de campo, didático, para as escolas de ensino fundamental na região. Esse levantamento florístico que v. nos apresenta agora vai nos ajudar na seleção das espécies encontradas floridas nesse período. Muito grata portanto por mais essa sua valiosa contribuição.
    Grande abraço
    Diana

  • Maricene

    Amigo André, bom dia.
    Obrigada por seu relato das maravilhosas composições biológicas encontradas neste trecho do Paraná. Uma verdadeira sinfonia com cada nota enaltecida pelo seu relato. Parece que terremos um verão rigoroso, já que a mutuca não poupou ninguém neste inverno. Agradeço mais uma vez por conhecer este belo litoral por seus relatos e maravilhar-me com suas pesquisas. Um excelente dia para você!