Floradas de bambu


2011/10/18 (expandida em 2017/02/03)

Em 2006 comecei o meu levantamento de plantas herbáceas e subarbustivas da beira das estradas do litoral norte do Paraná e de ruas de Antonina. Em junho daquele ano se iniciou uma florada em grande escala de Chusquea bambusoides var. bambusoides, conhecida pela população local como criciúma. Em 2007 ocorreu outra florada dela, tão espetacular quanto no ano anterior. Depois, encontrei C. bambusoides novamente fértil nos anos de 2014, 2015, 2016 e 2017.(a) Segundo Smith et al. 1981, em Santa Catarina C. bambusoides var. bambusoides tem sido encontrada fértil nos anos de 1946, 1951, 1952, 1953, 1966, 1967 e 1968. Os dados de PR e SC juntos sugerem que este bambu pode alternar períodos de três a quatro anos férteis por períodos de cinco a treze anos estéreis.

Na metade de janeiro de 2017 caminhei a rodovia PR-405 por toda sua extensão de 78 km, especialmente prestando atenção à presença de bambusáceas. Essa rodovia, totalmente situada dentro da APA de Guaraqueçaba, estende-se em direção oeste-leste e passa por altitudes variando entre 5 e 80 m s.n.m. Chusquea bambusoides é distribuída, de forma intermitente, ao longo de toda a estrada, em vários trechos chegando a dominar a margem da floresta.

Durante esta caminhada encontrei, nos primeiros 55 km do trajeto, apenas um exemplar fértil de C. bambusoides. Mas a partir do km 56, até o fim da estrada, havia muitos exemplares férteis. Evidentemente, nesta espécie não todos os exemplares florescem simultaneamente, ao contrário do que é relatado para algumas outras espécies de bambusáceas

Julius Platzmann, que residiu no litoral do Paraná de 1858 a 1864 (veja carta “No tempo de Júlio”, de outubro de 2015), tinha ouvido falar da “Krisiuma”, mas não chegou a conhecer a espécie (Platzmann 1872, p. 93). Possivelmente, naquela época C. bambusoides não era tão abundante na região quanto é agora.

 

Na Tabela 1 são listadas todas as espécies de bambusáceas que encontrei ao longo da rodovia PR-405 e através de uma chave é mostrado como distingui-las.

 

Tabela 1. As bambusáceas nativas e exóticas encontradas ao longo da rodovia PR-405, litoral norte do Paraná: chave para a identificação das espécies e os seus locais de ocorrência.

   

Espécie. Procedência

Medidas (1)

Locais de ocorrência na rodovia PR-405

Diâmetro máximo do colmo

Espessura máxima da parede do colmo

Comprimento máxima x largura máxima das folhas dos ramos

1a

Entrenós do colmo sólidos; planta escandente

Chusquea bambusoides
(2)
(criciúma).

Nativa

0,8 cm

17 x 3,1 cm

trecho km 9 – 9,5; km 24,3; km 30; km 40; km 40,5; km 48,8; km 50,5; km 53; trecho km 56,5 – 57,7; trecho km 67,5 – 68 5; km 74; km 76. A ocorrência varia de plantas dispersas a trechos totalmente dominadas e cobertos por ela.

1b

Entrenós do colmo ocos; planta não escandente

2

       

2a

Colmos com ramos basais armados com espinhos

Guadua tagoara (taquaruçu).

Nativa

8 cm

0,6 cm

26 x 4 cm; as margens das folhas ficam imediatamente convolutas após da corte do ramo.

Folhas do colmo: ≤43 x ≤23 cm, largo-triangulares, na face externa densamente cobertas com tricomas rígidos, castanho-avermelhados

Na PR-405, está restrita ao trecho entre a Serra do Mirante e a Serra Nhundiaqura, aparecendo somente em altitudes acima de 30 m s.n.m., nos seguintes pontos: km 51,3; km 51,9; trecho km 53,3-55,3; trecho km 56 – 57,3. A sua ocorrência varia entre plantas dispersas a trechos dominadas por ela.

2b

Colmos com todos os ramos inermes

3

       

3a

Bainhas das folhas no ápice com fimbrias livres de até 3,5 cm de comprimento

Merostachys ternata
(3) (taquara-lixa).

Nativa

2 cm

0,3 cm

32 x 8 cm. As folhas permanecem planas após da corte do ramo.

km 49,1; km 54,9; km 57,7.

Todas as três ocorrências se tratam de plantas isoladas.

3b

Bainhas das folhas no ápice com fimbrias até 0,5 cm de comprimento, ou fimbrias ausentes. (Espécies exóticas)

4

       

4a

Diâmetro máximo dos colmos 1,5 cm; entrenós sulcados; bainhas das folhas no ápice com fimbrias até 0,5 cm de comprimento

Phyllostachys aurea (bambuzinho-amarelo).

Exótica (China)

1,5 cm

0,3 cm

16 x 1,3 cm

km 42,7 (plantada para consolidação de talude).

Também na PR-340, em km 12,2 (plantada com a finalidade de obter varas de pescar, segundo um morador local nativo (com. pess. 2017). Na cidade de Guaraqueçaba foi plantada no jardim da Pousada Bambuza, bairro Costão.

4b

Diâmetro dos colmos superando 3 cm; entrenós não sulcados; bainhas das folhas no ápice sem fimbrias

5

       

5a

Bainhas do colmo glabras (examinar nos brotos!); diâmetro máximo dos colmos 5,5 cm

Bambusa tuldoides (bambu).

Exótica (sul da China)

5,5 cm

0,9 cm

24 x 3 cm

km 8,1; km 28,8; km 44,9; km 48; km 49,8; km 71,5; km 76.

Ocorrências isoladas ou em conjuntos; crescendo em densa agregação.

5b

Bainhas do colmo no lado exterior cobertas com tricomas rígidos, (4) escuros (examinar nos brotos!); diâmetro máximo dos colmos superando 7 cm

6

       

6a

Em cada nó um denso emaranhado de curtos raízes adventícias formando um anel ao redor do colmo; lâmina foliar até 40 x 6,5 cm; ramos primários mais de um em cada nó do mediocolmo

Dendrocalamus sp. (bambu-balde).

Exótica (Ásia)

18 cm (20 cm próximo à base)

2,3 cm

40 x 6,5 cm

km 8,7; km 36,1 (na margem do rio Tagaçaba, sendo pouco visível a partir da rodovia); km 36,9.

Ocorrências isoladas; crescendo em agregação.

6b

Sem anéis distintos de raízes adventícios ao redor do colmo; lâmina foliar até 25 x 3,3 cm; ramo primário único em cada nó do mediocolmo

7

       

7a

Colmos concolores, completamente verdes

Bambusa vulgaris
forma vulgaris
(bambu-grosso, bambu-açu).

Exótica (Ásia)

11 cm

2,8 cm

25 x 2,4 cm

km 1,5; km 25,5; km 28; km 42,7; km 42,9; km 47,3; km 49,9.

Na PR-340 ocorre nos seguintes pontos: km 14,8; km 14,9; km 15,0.

Ocorrências isoladas; crescendo em agregação.

7b

Colmos amarelos estriados de verde

Bambusa vulgaris
Aureovariegata’ (bambu-imperial).

Exótica.

13 cm

1,8 cm

20 x 3,3 cm

km 8,1; km 8,2; km 24,3; km 40,5; km 50,2. Na cidade de Guaraqueçaba ocorre no bairro Costão.

Ocorrências isoladas; crescendo em agregação.

(1)


Observações próprias feitas em material encontrado no litoral norte do Paraná.

(2)
Chusquea bambusoides é distinguível dos congêneres sul-brasileiros pela seguinte combinação de caracteres, além daqueles mencionadas na Tabela 1 (medições feitas em material do litoral norte do Paraná): espiguetas (6-)9,5-10(-11) mm de compr., lateralmente comprimidas; gluma maior 6 x 1,5 mm, muito aguda; inflorescências 40-75 x 30-35 mm; não secundiflora; lâmina foliar com 4-6 pares de nervuras secundárias, sem tufo de tricomas na base; pecíolo curto pubescente no lado interior; bainha frequentemente compressa, escabrosa de acúleos recurvos, curto fimbriada de pelos < 1,5 mm de compr.; lígula 2 mm de compr., inteira.


(3)
Merostachys ternata se distingue dos congêneres sul-brasileiras pelas fimbrias mais longas no ápice da bainha e pelas folhas mais largas (Smith et al. 1981).

(4)
Apesar de ser menos terrível quanto, lembra bastante à cobertura do fruto de Mucuna urens (olho-de-boi).

 

Baseando-me em Smith et al. 1981 e Kaehler et al. 2014, julgo que no litoral do Paraná, em altitudes abaixo de 500 m, devem ocorrer várias espécies adicionais de bambusáceas nativas, todas elas pertencentes aos gêneros Chusquea e Merostachys. Sabe-se que a Mata Atlântica tem uma grande diversidade em bambusáceas e a parte desta floresta situada no litoral sul da Bahia contém a maior diversidade de bambusáceas do mundo: 62 espécies distribuídas sobre 22 gêneros! (Por 1992, p. 30).

Das espécies incluídas na Tabela 1, eu vi somente material fértil de Chusquea bambusoides e de Bambusa tuldoides, a última sendo tratada mais adiante nesta carta.

Na literatura e na Internet encontrei para Guadua tagoara somente dois registros de material fértil encontrado no litoral do Paraná: Gerdt Hatschbach coletou material florida em 1974, no município de Antonina (fonte: “Species Link Network”, <www.splink.org.br>) e Julius Platzmann (1872, p. 93) mencionou ter visto a florada desta espécie em um dos seus seis anos de permanência no litoral paranaense (ele não especifica qual ano foi, deste período de 1858 a 1864). Platzmann descreve a inflorescência como “uma panícula amarelo-ouro, que tem quase o dobro do comprimento da panícula da aveia” e acrescenta que “são necessários muitos anos – o povo fala que são sete” para que a espécie floresça (Platzmann 2010, p. 119). É interessante que até hoje os moradores rurais do município de Guaraqueçaba afirmem que o taquaruçu floresce a cada sete anos e que as plantas morrem a cada 14 anos. Segundo uma pessoa que reside há trinta anos no povoado Rio Verde, município de Guaraqueçaba (Gilson Crespo Anastácio; com. pess. 2017), a última e única florada do taquaruçu (Guadua tagoara) que ele testemunhou foi em 2007. Este fato é interessante, pois naquele ano houve no litoral norte uma invasão do pixoxó, uma ave granívora que em outros anos é muito rara (veja carta “Invasão do pixoxó”, de dezembro de 2007).

 


Guadua tagoara (taquaruçu), material estéril; PR-405 km 55,2; Guaraqueçaba (2017/01/17).

 

Para Merostachys ternata (taquara-lixa), Bambusa vulgaris f. vulgaris (bambu-grosso) e B. vulgarisAureovariegata’ (bambu-imperial)
não tenho encontrado registros – nem na literatura nem na Internet – de floradas no litoral do Paraná. Segundo um residente nativo dos povoados Bananal e Serra Negra, município de Guaraqueçaba (Élson Lauro Teodoro; com. pess. 2017), a última florada da “taquara-lixa” (Merostachys sp.) nesta região aconteceu em um dos anos do período 1994 a 1996: ele não se lembrou qual destes anos foi.

Platzmann ficou maravilhado com um “taquaruçu” do qual um amigo lhe tinha trazido fragmentos para estudo. A espécie era procedente das “elevações em volta do rio Guaraqueçaba” e Platzmann foi informado que ela estaria restrita às florestas situadas em altitudes entre 300 e 400 m s.n.m. (“1000 – 1360 pés”). Ele recebeu um broto (“ambos os extremos com dois colmos brotando, verdadeiras lanças apontadas”), um pedaço de 1,65 m (“2,5 côvados”) do colmo e uma folha. Ele opinou que se tratava de Schizostachyum blumii, mas este bambu asiático não é e nem foi cultivado no Brasil (Forzza et al. 2010, Smith et al. 1981, Souza & Lorenzi 2008, Wanderley et al. 2001 [p. 22]). Platzmann examinou com afinco este material e pelo conjunto de dados descritivos que ele oferece (as bainhas estavam cobertas por um indumento de tricomas rígidos “espinescentes”) e pelas medidas que apresenta,(b) e os usos que seriam feitos da planta, percebe-se que se tratava, na realidade, de Bambusa vulgaris f. vulgaris, ou de Dendrocalamus. Provavelmente foi a primeira, julgando o tamanho das folhas apresentado por Platzmann.

Segundo Wanderley et al. 2001, B. vulgaris foi introduzido no Brasil “há mais de 200 anos” e é interessante descobrir, através deste livro de Platzmann, que a espécie já estava presente no litoral paranaense nos anos sessenta do século XIX.

O navegante americano Joshua Slocum usou bambu como flutuadores, na construção do seu barco Liberdade, na cidade de Guaraqueçaba, em 1888 (veja carta “Ninfas na Mata Atlântica”, de março de 2016). A espécie que ele usou deve ter sido Bambusa vulgaris também, já que o taquaraçu nativo (Guadua tagoara) não forma colmos tão retos e grossos.

O imigrante suíço William Michaud viveu no Morro Barbado, hoje conhecido como Barbados, na Ilha de Superagui e na sua propriedade (“sur ma proprieté”; Guisan & Lambert 2002, p. 119) ele teve um grande exemplar de Bambusa vulgaris f. vulgaris, que retratou numa linda aquarela. A última foi enviada para a sua irmã Nancy, na terra natal, junto à carta de 15 de novembro de 1896. A respeito desta planta ele comentou na carta: “O cano de bambu em torno do qual os desenhos são enrolados – para evitar que ficam enrugadas nos sacos de Correio – é uma parte cortada da touceira [de bambu] mostrado em um dos desenhos [lê-se aquarelas; AdM]. Isso é também a touceira donde eu corto o bambu para a minha caneta.” (Minha tradução).(c)

Como mencionei na carta “Tratando (d)os imigrantes: algumas leituras”, a imigração japonesa no Paraná começou em 1916, no rio Cacatu, município de Antonina. Já que os japoneses apreciam muito B. vulgaris, também pelos seus brotos comestíveis, não é de surpreender que hoje tem um bom número de exemplares possantes da espécie próximo ao local onde o rio Cacatu cruza com a atual rodovia PR-340.

Não sei quanto tempo Dendrocalamus já está no Brasil. Segundo um residente nativo dos povoados Açungui e Tagaçaba, município de Guaraqueçaba (Alfredo Reded, com. pess. 2017), os exemplares encontrados naquela região procedem de uma planta há cinquenta anos trazida de Santa Catarina por um pastor batista.

 

Em 2006, do fim de julho até outubro, estava florida uma grande touceira de Bambusa tuldoides no km 8,1 da rodovia PR-405, município de Antonina. Esse bambu exótico “floresce só após muitos anos” (Smith et al. 1981). Foi a única florada desta espécie que testemunhei desde que, em 2003, vim residir no litoral paranaense. O espécime florido tinha 10 m de altura, com a touceira de 2 m de largura e os seus colmos tinham diâmetro máximo de 4,5 cm.

Guerreiro & Lizarazu 2010 fizeram um levantamento dos eventos de florada de Bambusa tuldoides no centro-sul da América do Sul, baseado em material depositado em alguns herbários, dados de literatura e um único registro próprio das autoras.

Na Tabela 2 são apresentados os registros da florada de B. tuldoides listados naquele trabalho, complementado com o meu próprio registro (especificado acima) e os dados oferecidos em Smith et al. 1981. Visitei o Herbário do Museu Botânico Municipal (MBM) e o Herbário do Departamento de Botânica da Universidade Federal do Paraná (UPCB), ambos em Curitiba, em busca de dados adicionais. Juntos, estes herbários contêm seis coleções de material florido desta espécie de bambu.

 

Tabela 2. Anos e localidades da florada de Bambusa tuldoides no centro-sul da América do Sul.

Ano

Mês

País

Estado / Província / Distrito / Região

Fonte (1)

1868

10

Brasil

Rio de Janeiro

 

1905

11

Argentina

Buenos Aires

 

1907

05

Brasil

São Paulo

 

1907

11

Brasil

Distrito Federal

 

1917

12

Argentina

Capital Federal

 

1928

02

Argentina

Buenos Aires

 

1933

10

Uruguai

Colonia

 

1934

05

Uruguai

Colonia

 

1937

10

Argentina

Buenos Aires

 

1938

10

Argentina

Jujuy

 

1939

02

Chile

Região Metropolitana de Santiago

 

1939

12

Argentina

San Juan

 

1941

02

Brasil

Rio Grande do Sul

 

1941

07

Uruguai

Montevideo

 

1942

05

Argentina

Jujuy

 

1943

02

Argentina

Jujuy

 

1943

03

Argentina

Jujuy

 

1943

10

Argentina

Buenos Aires

 

1947

01

Argentina

Capital Federal

 

1947

12

Brasil

São Paulo

 

1954

Brasil

Minas Gerais

 

1956

11

Brasil

Rio Grande do Sul

Smith et al. 1981

1957

Brasil

Rio Grande do Sul

Smith et al. 1981

1957

09

Brasil

Santa Catarina

Smith et al. 1981

1960

02

Argentina

Capital Federal

 

1960

09

Argentina

Capital Federal

 

1961

10

Brasil

Santa Catarina

Smith et al. 1981

1962

11

Argentina

Capital Federal

 

1966

01

Chile

Região de Valparaíso

 

1967

10

Argentina

Capital Federal

 

1968

10

Brasil

Santa Catarina

Smith et al. 1981

1972

04

Brasil

Espírito Santo

 

1974

11

Argentina

Jujuy

 

1977

05

Brasil

São Paulo, próximo a Itabaia

Coleção no MBM

1978

02

Brasil

Rio de Janeiro

 

1979

10

Argentina

Capital Federal

 

1980

08

Brasil

Rio de Janeiro

 

1984

Brasil

São Paulo

 

1989

01

Argentina

Misiones

 

1992

04

Paraguai

Guairá

 

1992

07

Brasil

Paraná, Guaraqueçaba

Coleção no MBM

1992

10

Brasil

Rio Grande do Sul, Vale do Sol

Coleção no MBM

1999

12

Brasil

Paraná, Londrina

Coleção no MBM e no UPCB

2003

02

Argentina

Capital Federal

 

2003

11

Brasil

Santa Catarina, Apiúna

Coleção no MBM

2005

10

Brasil

Paraná, Curitiba

Coleção no UPCB

2005

Brasil

Distrito Federal

 

2005 [a]

Brasil

Goiás

 

2005 [b]

Brasil

Goiás

 

2006

07, 08, 09, 10

Brasil

Paraná

Observ. pess.

2007

03

Argentina

Buenos Aires

 

2008

10, 11, 12

Argentina

Buenos Aires

 

2009

01, 02, 03, 04

2009

03

Argentina

Buenos Aires

 

2009

10

Argentina

Buenos Aires

 

2009

12

Argentina

Capital Federal

 

2014

5

Brasil

Paraná, Antonina (na margem da rodovia PR-340; uma touceira, situada entre km 23,7 e km 26,0)

Gabriela Bergmaier Lopes (com. pess. 2017)

(1) A fonte é Guerreiro & Lizarazu 2010 quando sem indicação.

 

Guerreiro & Lizarazu 2010 estimaram que o ciclo de floração de B. tuldoides na região contemplada é de aproximadamente 23 anos. De fato, esta floração cíclica aparece nitidamente na “Figura 4” daquele artigo. Mas, infelizmente, fazendo a comparação da “Figura 4” com a minha Tabela 1, percebi que elas fizeram um “ajustamento de dados” naquela figura!

Com base nos registros apresentados pelas autoras e na minha Tabela 1, a única coisa que se pode dizer é que desde o ano 1900 houve na região contemplada quatro períodos mais prolongados (> 5 anos) de uma possível ausência da floração desta espécie. Estes períodos são: 1908-1916 (nove anos), 1918-1927 (dez anos), 1948-1953 (seis anos) e 1993-2002 (dez anos). Se considerarmos somente a parte da América do Sul meridional com o maior número de dados disponíveis – a Capital Federal da Argentina junto com a província de Buenos Aires juntas (a primeira é geograficamente unida à segunda) – há seis períodos prolongados (> 5 anos) sem registro documentado da florada deste bambu: 1906-1916 (11 anos), 1918-1927 (dez anos), 1929-1936 (oito anos), 1948-1959 (12 anos), 1968-1978 (11 anos), 1980-1988 (19 anos). Baseando-me nestes dados, sugiro que o ciclo de floração de B. tuldoides no nordeste da Argentina é entre oito e doze anos, que é apenas a metade do tempo estimado por Guerreiro & Lizarazu 2010.

Na Tabela 3 é mostrado que o principal mês da floração deste bambu na metade inferior deste continente é outubro.

 

Tabela 3. Frequência mensal das floradas de Bambusa tuldoides no centro-sul da América do Sul.(1)

Mês

Jan

Fev

Mar

Abr

Mai

Jun

Jul

Ago

Set

Out

Nov

Dez

Número de vezes (n=54)

4

8

4

3

5

0

3

2

3

14

7

6

(1)
Baseado em Tabela 2.

 

Todas as espécies de bambus são úteis ao ser humano. Smith et al. 1981 mencionem para as espécies incluídas nesta carta os seguintes usos no Brasil:

Bambusa tuldoides “é usado para cercas, quebra-ventos, cortinas de jardim, no fabrico de objetos de uso doméstico, xilogravuras, instrumentos de música e para papel, encanamentos rústicos na área rural, cobertura em parreiras, orquidários e viveiros de plantas.”.

Bambusa vulgaris “tem múltiplos aplicações, mas no Brasil é usado quase que exclusivamente para ornamento de parques, cortinas de jardim, quebra-ventos e tapumes divisórios de propriedades rurais. Os brotos novos, desembaraçados das bainhas, são comestíveis, (…); os que acabam de nascer passam mesmo por ser um legume finíssimo, idêntico ao espargo.”.

Chusquea bambusoides “é uma planta forrageira, um recurso para o gado no inverno.”.

Dendrocalamus sp. é “planta ornamental. Seus colmos são disputados para a arte de xilogravura.”. Segundo Corrêa 1926 “serve também para construção de pontes e casas (duração 12 anos), telhas, calhas, mastros para pequenas embarcações, baldes para água e vasos para flores, sendo muito apreciada para pinturas, especialmente quando tem os depósitos silicosos, que são de brilhante efeito.”. À essas aplicações eu posso acrescentar o fato de residentes de comunidades rurais afastadas de centros urbanos, como aqueles situadas no interior da APA de Guaraqueçaba, usarem colmos selecionados pelo comprimento, firmeza e retidão deste bambo
para fixar, no seu topo, a antena de rádio, televisão ou telefone celular.

Guadua tagoara “tem numerosas aplicações na indústria caseira rural.”.

Merostachys ternata: “as folhas servem de forragem aos animais. Os colmos servem para feitura de balaios, jacás, tipitis, jiquis, coves, samburás, trabalhos de artesanato, etc.”.

Phyllostachys aurea é “cultivada como planta ornamental e para consolidação de taludes de rodovias. Largamente usada para estacas de hortas, vassouras para gramados e cobertura de viveiros de plantas.”. Segundo Lorenzi & Souza 2008, os colmos retos, leves e flexíveis são muito utilizados por pescadores, daí um dos seus nomes comuns: bambu-de-vara-de pescar.

As sementes de bambusáceas são muito procuradas por roedores e por algumas aves granívoras, assunto ao qual tenho dedicado as cartas “Ratadinha e jararacatada” (dezembro de 2011) e “Invasão do pixoxó” (referida acima).

As larvas de várias espécies de borboletas da subfamília Satyrinae se alimentam exclusivamente de bambusáceas. Entre elas, a mais espetacular é Morpho aega, cujos machos adultos “apresentam na face superior das quatro asas uma coloração azul metálica de brilho e intensidade inigualáveis”, estes machos, pela sua beleza, tendo sido “alvo de intensa perseguição pelo homem, sendo caçada anualmente aos milhões para confecção de bijuterias, quadros e bandejas” (Otero 1986). As larvas da espécie vivem em diferentes bambus, especialmente em Chusquea (Brown Jr. 1992) e no litoral norte do Paraná os adultos voam em fevereiro e março, em junho e em setembro.

Os bambus formam também um substrato muito interessante para cogumelos. Na Tabela 4 são listadas as 105 espécies que eu tenho encontrado em bambu no Paraná.

 

Tabela 4. Espécies de cogumelos encontrados em substratos do bambusáceas no estado do Paraná.

Filo

Grupo artificial

Gênero

Números de espécies

Página (p.) em Meijer 2009 com ilustração da espécie

Exclusivamente em bambusáceas

Também em outras plantas

Total

Basidio-

mycota

lamelados e afins

Agaricaceae: gênero novo?

1

 

1

 

Bolbitius

 

1 (mesosporus)

1

 

Campanella

 

2 (aeruginea; alba)

2

 

Clitopilus

 

1 (levisporus)

1

p. 252

Coprinopsis

1

 

1

 

Crepidotus

1

1 (epibryus)

2

 

Crinipellis

5 (incl. perpusilla; pseudostipitaria)

1 (cf. commixta)

6

 

Cystoderma

 

1 (austrofallax)

1

 

Deconica: seção Melanotus

2

1 (decapitatus)

3

 

Deconica: outras seções

 

3 (incl. ‘Psilocybe’ aff. overeemii)

3

 

Favolaschia

1 (aurantiaca)

1 (moelleri)

2

 

Galerina

 

1 (recedens)

1

 

Gerronema

 

1

1

 

Gloiocephala

1 (palmarum)

1 (epiphylla)

2

 

Gymnopilus

 

2 (marasmioides; subtropicus)

2

 

Hohenbuehelia

 

1 (cf. portegna)

1

 

Hydropus

 

1 (nigritus)

1

 

Lentinus

 

1 (crinitus)

1

 

Marasmiellus

1 (gilvus var. bambusearum)

6 (incl. candidus; distantifolius; enodis; cf. inconspicuus; cf. juniperinus)

7

 

Marasmius

6 (incl. aspilocephalus;
graminum var. graminum; nigrobrunneus)

4 (incl. crinis-equi var. monocotyledonum)

10

 

Mycena

2 (incl. recessa)

3 (incl. capillata; hylophila)

5

 

Panellus

6 (incl. cf. longinquus; nubigenus subsp. nubigenus; olivaceus)

 

6

p. 244 (P. olivaceus)

Pleuroflammula cf.

 

1

1

 

Ramicola

2

 

2

 

Roridomyces

 

1 (albororidus)

1

 

Schizophyllum

 

1 (commune)

1

 

Setulipes

1

 

1

 

Stropharia

 

1 (alcis var. austrobrasiliensis)

1

 

Xeromphalina

 

1 (aff. melizae)

1

p. 149

poróides (1)

Grammothele

1

 

1

 

Grammothelopsis

1 (bambusicola)

 

1

p. 114

Hexagonia

 

1 (hydnoides)

1

 

Pachykytospora

 

1 (alabamae)

1

 

Phellinus

1 (bambusarum)

 

1

 

Polyporus

 

3 (arcularioides; dictyopus; guianensis)

3

 

Rigidoporus

 

1 (lineatus)

1

 

Tyromyces

 

1 (leucomallus)

1

 

estereóides

Epithele

1

 

1

 

Leptosporomyces

1

 

1

 

Mycobonia

 

1 (flava)

1

 

Phanerochaete

 

1

1

 

Sebacina cf.

1

 

1

 

clavarióides

Deflexula

1 (secundiramea)

 

1

 

Pterula

1 (palmicola)

 

1

 

Typhula

 

1

1

 

hetero-

basidiomicetos

Dacrymyces

 

1 (deliquescens var. ellisii)

1

 

Dacryopinax

 

1 (spathularia)

1

 

gasteromicetos

Morganella

 

1

1

 

Subtotal 1:

38

(43%)

51

(57%)

89 (100%)

 

Asco-

mycota

discomicetos

Chlorociboria

 

1 (aerruginascens)

1

 

Galiella

 

1 (cf. spongiosa)

1

p. 78

Hymenoscyphus

1

1 (lasiopodius)

2

 

Lachnum

3 (incl. chusquea)

 

3

 

Pezicula

1 (bambusina)

 

1

 

Plectania

 

1 (cf. rhytidia)

1

 

Trichopeziza

2

 

2

 

pirenomicetos

Ascopolyporus

1

 

1

 

Hypocrea

2 (aff. bambusella; cf. rufa)

 

2

 

Hypocrella

1 (gaertneriana)

 

1

 

Mycomalus

1 (bambusinus)

 

1

 

Subtotal 2:

12

(75%)

4

(25%)

16

(100%)

 

Total:

50

55

105

 

(1) Coelho et al. (2006, 2009) oferecem chaves de identificação para os fungos poróides encontrados em substratos de bambu.

 

Como se vê na Tabela 4, 75% das espécies de ascomicetos encontradas em bambu são exclusivas para este grupo de plantas. Para os basidiomicetos a porcentagem é menor, mas ainda é alta: 43%.

Os microfungos encontrados em algumas bambusáceas no Brasil (Bambusa, Chusquea e Guadua) são listados em Mendes et al. 1998.

 

(a)
Encontrei material fértil de Chusquea bambusoides var. bambusoides nas seguintes datas e localidades: 2006/06/30 (PR-405, km 9,5); 2006/07/17 (PR-405, km 54); 2006/09/21 (PR-405, trecho km 52 – 57); 2006/07/17 (PR-405, km 54); 2007/07/… (PR-405, km 54); 2014/08/10 e 2015/02/9 (PR-340, trecho km 12,9 – 13,3); 2015/01/15 (PR-405, km 57,5); 2016/06/12 (Reserva Natural Salto Morato, Trilha da Figueira); 2016/10/20 (PR-405, km 74, na estradinha para o bairro Costão); 2017/01/12 (PR-405, trecho km 56,5 – 57,7 e trecho km 67,5 – 68,5); 2017/01/16 (PR-405, km 76 e km 74, na estradinha para o bairro Costão); 2017/01/17(PR-405, km 40); 2017/01/18 (PR-340 km 13,3).

(b)
Platzmann apresenta as seguintes medidas para o seu material: o comprimento dos tricomas que cobrem a bainha é cerca de 1 mm; a circunferência do colmo é dez polegadas (25,4 cm; corresponde a cerca de 8 cm de diâmetro); a espessura da parede do colmo é meia polegada (1,27 cm); a lâmina foliar tem uma polegada de largura (2,5 cm) e mais de nove polegadas de comprimento (23 cm). A medida da lâmina foliar está presente no livro original (Platzmann 1872), mas foi omitida da versão traduzida (Platzmann 2010).

(c)
Texto
original: “Le tuyau de bambou autour duquel sont enroulés les dessins – pour ne pas être trop froissés dans les sacs de poste – est um morceau coupé de la touffe representée dans l’un des dessins. C’est de cette touffé que je coupe les bambous pour mes enclos.” (Guisan & Lambert 2002, p. 119).

 

REFERÊNCIAS:

Brown Jr., K.S. 1992. Borboletas da Serra do Japi: diversidade, hábitats, recursos alimentares e variação temporal. In: Morellata, L.P.C. (Ed.). História natural da Serra do Japi. Ecologia e preservação de uma área florestal no Sudeste do Brasil. UNICAMP/FAPESP, Campinas, pp. 142-187.

Coelho, G., R.M.B. da Silveira, R.T. Guerrero & M. Rajchenberg. 2009. On poroid Hymenochaetales growing on bamboos in Southern Brazil and NE Argentina. Fungal Diversity 36: 1-8.

Coelho, G., R.M.B. da Silveira & M. Rajchenberg. 2006. A new Gloeoporus species growing on bamboo from southern Brazil. Mycologia 98: 821-827.

Corrêa, M.P. 1926. Diccionário das plantas úteis do Brasil e das exóticas cultivadas, Vol. I. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional. 747 pp.

Forzza, R.C. (org.) et al. 2010. Catálogo de plantas e fungos do Brasil. Andrea Jakobsson Estúdio: Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 1699 pp. (2 Vol.).

Guerreiro, C.I. & M.A. Lizarazu. 2010. Flowering of Bambusa tuldoides (Poaceae, Bambusoideae, Bambuseae) in southern South America. Darwiniana 48: 25-31.

Guisan, M. & F. Lambert. 2002. William Michaud (1829-1902): lettres, dessins et aquarelles d’un émigrant vaudois au Brésil. Association des Amis de William Michaud e Musée historique de Vevey, Vevey 236 pp.

Kaehler, M., R. Goldemberg, P.H. Labiak Evangelista, O. dos S. Ribas, A.O.S. Vieira & G.G. Hatschbach. 2014. Plantas vasculares do Paraná. Universidade Federal do Paraná, Departamento de Botânica, Curitiba. 190 pp.

Lorenzi, H. & H.M. de Souza. 2008. Plantas ornamentais no Brasil: arbustivas, herbáceas e trepadeiras, Ed. 4. Edit. Plantarum, Nova Odessa. 1088 pp.

Meijer, A.A.R. de. 2009. (‘2008’). Notable macrofungi from Brazil’s Paraná pine forests = Macrofungos notáveis das florestas de pinheiro-do-paraná. Embrapa Florestas, Colombo, Brazil. 431 pp.

Mendes, M.A.S., V.L. da Silva, J.C. Dianese, M.A.S.V. Ferreira, C.E.N. dos Santos, E. Gomes Neto, A.F. Urben & C. Castro. 1998. Fungos em plantas no Brasil. Embrapa, Serviço de Produção de Informação (SPI), Brasília. 555 pp.

Otero, L.S. 1986. Borboletas: livro do naturalista. Ministério da Educação, Fundação de Assistência ao Estudante, Rio de Janeiro. 111 pp.

Platzmann, J. 1872. Aus der Bai von Paranaguá. B.G. Teubner, Leipzig. 271 pp.

Platzmann, J. 2010. Da Baía de Paranaguá. (Traduzido por F.L.P. Lange do original [Aus der Bai von Paranaguá. B.G. Teubner, Leipzig. 1872]). Edição do tradutor, Curitiba. 272 pp.

Por, F.D. 1992. Sooretama, the Atlantic rain forest of Brazil. SPB Academic Publishing, Den Haag. 130 pp.

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