RESENHA do romance histórico “Retrato no entardecer de agosto”


Em 8 de março de 2013 divulguei a seguinte mensagem: “Considero Miguel Sanches Neto, de Ponta Grossa, Paraná, um dos melhores escritores brasileiros da nova safra. Acabei de ler ‘Um amor anarquista'”, romance que deve agradar a todos que tiveram experiências próprias com a vida comunal (toda a geração cabeluda dos anos setenta, à qual pertenço).”.

 

O romance de Sanches Neto descreve a experiência da Colônia Cecília, em Palmeira, PR. Tratou-se de uma colônia agrícola fundada pelo anarquista italiano Giovanni Rossi, em abril de 1890. O fim da Colônia Cecília, em abril de 1894, deu-se em decorrência de “a um conjunto de fatores convergentes: a miséria que a colônia sofreu ao longo de toda a sua existência, o excesso de trabalho, o ambiente econômico desfavorável, a discórdia, as incompatibilidades de gênios e as dificuldades de pôr em prática os princípios comunistas anarquistas.” (Felici 1998, p. 36).

No território que atualmente pertence ao Paraná, a Colônia Cecília foi precedida por outra experiência comunitária, a Colônia Thereza, fundada pelo francês Jean-Maurice Faivre. O recém-publicado romance histórico “Retrato no entardecer de agosto”, de Luiz Manfredini (2016) é dedicado àquela Colônia e ao seu fundador.

Jean-Maurice Faivre nasceu em 21 de setembro de 1795, nas montanhas do Jura, França, no atual município de Saint-Maurice, a 750 metros de altitude (Fernandes 2006, p. 20). Formou-se em medicina na universidade de Paris, em 1825. No ano seguinte, viajou de Hamburg ao Rio de Janeiro, num navio que estava sob comando do brutamonte Georg Anton Aloysius Schaffer (p. 22).(a) O navio chegou ao seu destino no fim daquele ano (p. 25) e algumas semanas depois, em 11 de dezembro de 1826, faleceu naquela cidade a imperatriz Maria Leopoldina (p. 54). Dom Pedro não estava presente no sepultamento da esposa, pois ele se encontrava “em combate no Sul” (p. 54), lutando contra tropas argentina-uruguaias.(b)

Pouco tempo após de ter chegado ao Rio de Janeiro, Faivre já estava à frente da Sétima Enfermaria do Hospital Militar da Corte (p. 49). Em 1829 fora criada a Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro e Faivre está entre os seus cinco fundadores (p. 65). Em 1835, aquela sociedade torna-se, por decreto, Academia Imperial de Medicina e na solenidade estava presente Dom Pedro II, então com 9 anos (p. 61, 66) (Fernandes 2006, p. 32). Seu pai, Dom Pedro, tinha abdicado em 1831 e falecido em Lisboa em 1834. Em 1840, chegando na maioridade (14 anos), o imperador Dom Pedro II fora coroado e em 1843 se casou com a italiana Thereza Christina Maria de Bourbon.(c)

Como médico, Faivre fazia tratamentos com dietas e sangrias (usando a sanguessuga Hirudo medicinalis, importada aos milhares da França; p. 49, 50). Aplicava vomitórios purgantes (p. 50) e também usava o milagroso “vinho de quinium de Labarraque” (p. 58).

Em 1840, Faivre se casou com Anne Bricquelet Taulois (parente distante de Gustave Rumbelsperger; veja adiante) e teve uma filha com ela em 1841. A criança nasceu sem vida e a mãe morreu dois dias depois, por complicações pós-parto (p. 107). Imensamente triste, Faivre resolveu viajar pelo interior do país. Foi para Mato Grosso e depois para Goiás, onde analisou as águas termais de Caldas Novas e trabalhou com leprosos, dois tópicos aos dedicou importantes estudos (p. 109).

Em maio de 1846 ele voltou à França (Fernandes 2006 p. 60), onde ‘recrutou’ franceses em sua terra natal no Jura, e também em Paris. Conseguiu reunir 63 pessoas, em sua maioria pobres, incluindo cidadãos de Bruxelas e embarcou com este grupo na Antuérpia, em 21 de dezembro daquele mesmo ano, chegando em Paranaguá após uma viagem marítima de 58 dias (p. 113), Faivre havia pagado do próprio bolso a viagem marítima de todos eles, ajudado pelos seis contos de réis que a sua amiga, a imperatriz Thereza Christina, tinha investido no seu projeto de fundar uma colônia. Em Paranaguá ele comprou utensílios agrícolas para o grupo todo e então, em 17 de fevereiro de 1847 (p. 74) embarcaram em outro navio, para chegar ao porto de Antonina. Três dias após a chegada em Antonina, começaram a caminhada rumo a terra prometida na margem do rio Ivaí. Esta terra, uma área de “1 légua quadrada”, Faivre havia ganhado de uma pessoa conhecida por ele nos seus anos na Corte: João da Silva Machado, o futuro Barão de Antonina (p. 78). A viagem de Antonina até o local do destino durou mais de dois meses (p. 77). Haviam atravessado a Serra do Mar pelo caminho conhecido hoje como Itupava, as mulas, além da carga, carregando também 26 crianças (p. 74). Ao atravessar os Campos Gerais viram perdizes e seriemas (p. 77). O grupo chegou ao destino em maio de 1847 e logo começou a trabalhar (p. 77). A propriedade fora batizada de Vila Agrícola Thereza Christina, abreviada como “Colônia Thereza”, em homenagem à imperatriz (p. 116).

Como estudante em Paris, Faivre tinha conhecido Charles Fourier (p. 17), que em 1826, ano em que Faivre viajou ao Brasil, anunciou “pelos jornais e em mais de quatro mil cartas que, entre meio-dia e duas da tarde de todos os dias, aguardaria em casa a visita de capitalistas abastados, dispostos a investir cem mil francos na obra do primeiro falanstério.(d)
E assim vinha fazendo e (…) o faria pelos onze anos seguinte, até as vésperas de sua morte, em 10 de novembro de 1837, sem que recebesse uma visita sequer.” (p. 92).

Faivre gostava das ideias de Fourier (exceto da liberdade sexual), e queria pôr elas em prática na Colônia Thereza. Infelizmente, não havia tanto idealismo assim entre os franceses que havia trazido. No outono de 1848, um ano após a chegada do grupo, um jovem integrante da colônia se suicidou por enforcamento (p. 114). Logo em seguida, outros integrantes franceses da colônia começaram a partir, os evasivos espalhando-se por Guarapuava, Ponta Grossa, Curitiba e Paranaguá (p. 117).(e) No fim de 1849 os franceses da Colônia Thereza estavam reduzidos à apenas uma família, três solteiros e o viúvo Balthazar (p. 118). A colônia, entretanto, não morreu, pois no daqueles que haviam saído, vieram brasileiros.

Em 1853 a Província do Paraná fora emancipada de São Paulo. Faivre faleceu em 31 de agosto de 1858, no inverno e durante uma enchente do rio Ivaí que causou bastante prejuízo à Colônia Thereza (p. 127). Naquele momento viviam na Colônia 244 pessoas, na maioria agricultores (p. 126).

Até o ano da morte de Faivre, a Colônia sofreu hostilidades dos índios botocudos (p. 36, 59), porém os colonos se relacionavam bem com os índios coroados, um povo pacífico que habitava a outra margem do rio Ivaí (p. 60). Logo após a morte de Faivre, veio de Guarapuava o cacique caingangue Viri (p. 36), que conseguiu estabelecer um tratado de paz entre os coroados e os moradores da Colônia (p. 130).

Em 1850 chegou à Colônia o engenheiro Gustave Rumbelsperger, um francês que estava vivendo no Brasil desde 1830 (Fernandes 2006, p. 199). Meio ano após da morte de Faivre, Gustave se tornou o novo diretor da Colônia (p. 129). Enquanto Faivre estava vivo, o emprego de escravos na Colônia era explicitamente proibido (Fernandes 2006, p. 143), mas Gustavo era “mais pragmático” e admitiu “a presença de escravos nos trabalhos da comunidade” (Fernandes 2006, p. 204). Em 1869, Gustave pediu demissão e se mudou para o Rio de Janeiro. Em 1889, o ano em que faleceu a imperatriz Thereza Christina em Portugal, Gustave se tornou “naturalista viajante” do Museu Nacional de Rio de Janeiro (p. 129). Deve ter sido o próprio Dom Pedro II que o convidou, da mesma forma como ele havia convidado em 1877 para esta carga o naturalista Fritz Müller, com residência em Blumenau. Em 15 de julho do movimentado ano de 1889, houve um atentado contra a vida de Dom Pedro II e quatro meses depois este embarcou com a família para a Europa. Em 1891 foi promulgado a primeira Constituição Republicana e foi demitida da sua carga Fritz Müller (Müller 2009, p. 275), amigo de Dom Pedro II. Provavelmente nesta mesma ocasião, fora demitido também Rumbelsperger, mas nem Manfredini 2016 nem Fernandes 2006 informam o leitor a respeito disso. Rumbelsperger faleceu em outubro de 1892 (p. 129), menos de um ano após ter falecido Dom Pedro II em Paris.

 

A Colônia Thereza, originalmente situada no extenso território de Castro (p. 58), de alguma forma sobreviveu. Atualmente, o povoado de Thereza Christina, nome simplificado nos mapas geográficos como ‘Teresa Cristina’, faz parte do município de Cândido Abreu. Localiza-se na margem direita do Ivaí, enorme rio que deságua no rio Paraná. Teresa Cristina está situada na exata divisa entre a floresta ombrófila mista (floresta com pinheiro-do-paraná, Araucaria angustifolia) e a floresta estacional semidecidual (FUPEF 2004, p. 84-85). A palmiteira (Euterpe edulis) tem sido muito abundante naquela região (Maack 1968, p. 100).

Teresa Cristina tem as coordenadas 51˚08′ 25″ S / 24˚49′ 55″ O, e está a 500 m de altitude. Localiza-se dez quilômetros a sudoeste da Serra da Prata.

 

Eu tenho devorado o livro de Manfredini 2016 em um dia, o que mostra que o conteúdo foi saboroso. Mesmo assim, como leitor tenho algumas críticas.

O livro não foi suficientemente bem revisado. Encontrei um bom número de erros de português, incluindo uma frase incrível:

“(,,,) os tamancos usados pelos que não se estavam descalços.” (p. 76).

A agonia de Faivre está sendo estendido por todo o livro. É verdade que o seu processo de sua morte fora demorado (Fernandes 2006, p. 182-188), mas neste romance chega a cansar o leitor.

O autor usa um certo elitismo de linguagem, atitude que o próprio Faivre talvez desaprovaria, considerando que gostava da simplicidade.

Acho um pouco imaturo deixar o visitante inglês Eagleton (que viveu alguns meses na Colônia) repetir várias vezes que está gostando mais da erva-mate brasileira do que do ‘próprio’ chá inglês.

Não sei se o autor chegou a visitar o povoado de Teresa Cristina. Se ele fez, não o demonstra, pois não há descrição da paisagem e há quase nada a respeito da flora e fauna local. Ele menciona apenas o peixe surubi (p. 47) e as aves japi e noitibó (p. 43). Com ‘japi’ deve se referir a guaxe (Cacicus chrysopterus) e o ‘noitibó’ deve ser alguma espécie de bacurau (Caprimulgidae).

Teria apreciado a inclusão no livro de uma listagem das fontes de pesquisa, pois percebo que estas fontes têm sido extensas. Onde o autor leu as anotações feitas por Faivre sobre a vida dos coroados (p. 46-47)? Chegou a ser publicado a palestra “Notas sobre uma comunidade quase socialista no sertão da Província do Paraná, no Brasil” feito pelo citado Thomas Fox Eagleton para a Sociedade Geográfica de Londres? Maack 1968 omitiu a visita deste geógrafo ao Paraná.

Através de uma outra fonte (Fernandes 2006, p. 188 nota 93), sei que o cartógrafo John Henry Elliot publicou um relato da sua visita à Colônia. Naquela visita, Elliot pintou o retrato de Faivre, que aparece em escala pequena na capa de Manfredini 2016 e cobra toda capa de Fernandes 2006.

 

Como percebem, apreciei a leitura do livro de Manfredini, mas eu não transbordo de entusiasmo a respeito da sua qualidade literária.

 

Vou aproveitar para recomendar um outro livro sobre o mesmo assunto. Trata-se de “Saga da esperança”, de Fernandes (2006), um livro que descobri através da breve referência em Manfredini 2016 (p. 134). Ainda não li integralmente o livro de Fernandes, mas adorei os fragmentos já lidos!

 

(a) As páginas mencionadas sem autor nesta carta, sempre se referem a Manfredini 2016.

(b) Em 1828, um tratado de paz entre Brasil e Argentina reconheceria a independência do Uruguai.

(c) Moser 2016 cometeu um erro grave afirmando: “(Faivre) logo se tornou médico de confiança da imperatriz Leopoldina, esposa de Dom Pedro II. Faivre fez o parto da princesa Thereza Cristina (depois usou o nome para batizar sua utopia).”. Na realidade, Faivre nem chegou a conhecer Maria Leopoldina, a mãe de Dom Pedro II, pois ela faleceu poucas semanas após a chegada de Faivre no Brasil. Thereza Christina não foi a filha, mas a esposa de Dom Pedro II. Não sei se Faivre chegou a realizar o parto de um dos filhos do casal imperial. O casal teve quatro filhos: Afonso Pedro (nascido em fevereiro de 1845 e morrido em 1847), Isabel (nascida em julho de 1846), Leopoldina (nascido em 1847) e Pedro Afonso (nascido em 1848); fonte Wikipédia. Como médico, Faivre atendeu a imperatriz Thereza Christina, mas nem Manfredini 2016 nem Fernandes 2006 mencionam de ele ter feito o parto de um dos filhos da imperatriz (então só poderia ser o primeiro filho, já que em maio de 1846 Faivre partiu definitivamente de Rio de Janeiro). Teria o jornalista Moser inventado isso?

(d) falanstério: no fourierismo, organização comunitária concebida como uma realização plena da natureza humana, por meio do encontro entre princípios socialistas, como a propriedade coletiva dos meios de produção, e prescrições comportamentais, que incluem a plena liberdade sexual (Houaiss & Villar 2001). Fourier “denunciava uma inversão de valores, quando os ardis e a falta de escrúpulos eram tidos como “habilidade comercial” e a esperteza mais abjeta, como espírito previdente, enquanto modéstia e sinceridade, entre outros atributos, eram execradas como inépcia ou incompetência.” (Manfredini 2016, p. 93-94).

(e) Pelo que sei, essa vinda de franceses para a Colônia Thereza foi o único movimento migratório organizado de franceses para o Paraná. Os nomes dos franceses que iniciaram a Colônia são listados em Fernandes 2006 (p. 78 nota 20). Seria interessante descobrir onde estão os seus descendentes. A família França, de origem francesa e atualmente com numerosos membros nos municípios de Paranaguá e Guaraqueçaba, não consta entre os sobrenomes dos francesas que vieram com Faivre ao Brasil.

 

REFERÊNCIAS

Felici, I. 1998. A verdadeira história da Colônia Cecília de Giovanni Rossi. Cadernos Arquivo Edgard Leuenroth (Campinas) 8/9, 1998: 1-61. Também disponível em:
https://www.passeidireto.com/arquivo/24347524/felici-i—a-verdadeira-historia-da-colonia-cecilia-de-giovanni-rossi-artigo

Fernandes, J.L. 1996. Saga da esperança: trajetória de Jean-Maurice Faivre. Edit. Planeta, Ponta Grossa. 425 pp.

Fernandes, J.L. 2006. Saga da esperança: socialismo utópico à beira do Ivaí. Imprensa Oficial, Curitiba. 233 pp. (Trata-se da 2ª edição da obra anterior.)

FUPEF (Fundação de Pesquisas Florestais do Paraná). 2004. A floresta com araucária no Paraná: conservação e diagnóstico dos remanescentes florestais. (Organ.: P.R. Castella & R.M. De Britez). Ministério do Meio Ambiente, Brasília. 236 pp.

Houaiss, A. & M. de S. Villar. 2001. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Objetivo, Rio de Janeiro. lxxxiii, 2925 pp.

Maack, R. 1968. Geografia física do estado do Paraná. BADESPA/UFPR/IBPT, Curitiba. 350 pp.

Manfredini, L. 2016. Retrato no entardecer de agosto. Ipê Amarelo, Curitiba. 134 pp.

Moser, S. 2016. A saga de uma utopia às margens do rio Ivaí. Gazeta do Povo, Curitiba, 8 out. 2016. Caderno G, p. 17.

Müller, F. 2009. Para Darwin = Für Darwin, 1864 / por Fritz Müller; traduzido do alemão por L. R. Fontes e S. Hagen. Ed. da UFSC, Florianópolis. 279 pp.

Sanches Neto, M. 2005. Um amor anarquista. Record, Rio de Janeiro/São Paulo. 250 pp.

 

Também consultei, com ressalva, “Wikipédia, a enciclopédia livre”, nas seguintes entradas: Gustave Rumbelsperger, Jean Maurice Faivre, Dom Pedro II do Brasil, Teresa Cristina de Bourbon-Duas Sicílias.


 

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