RESENHA do livro “´Kaná” 1


Imigrantes, em qualquer parte do mundo, gostam de ouvir os relatos de/sobre outros imigrantes, neles esperando escutar o eco das suas próprias experiências. Acabei de ler o seguinte livro, recém-publicado:

 

Akamine, Kazuco. 2016. Kaná: da Terra do Sol Nascente para a Terra dos Frutos de Ouro. Íthala, Curitiba. 191 pp.

Palavra-chave: ancestrais

 

Conteúdo

É uma história real romantizada, que descreve a partida de imigrantes de Okinawa (ou Oquinaua) em 1937, a viagem de navio para o Brasil, os dois anos de trabalho num cafezal em SP (obrigatoriedade pelo contrato de imigração) e os primeiros anos independentes, até o momento, no início de 1943, em que a personagem principal, Kaná Akamine, percebe que está grávida. Kaná deve ser a avó paterna da autora, o que não é explicitado. Ao longo das páginas, recebemos muitas informações históricas sobre Okinawa (principalmente, antes da sua anexação pelo Japão) e também sobre Japão e China. Também aprendemos bastante daquelas culturas, que na época tendiam a ser oprimente em relação à uma mulher casada que não conseguia gerar filhos, como Kaná. Este foi o motivo principal para Kaná querer partir com o marido, neste caso para o Brasil. Também são relatados alguns mitos e, como consequência das crenças regionais, Kaná fica profundamente confusa, chocada, vendo um passageiro, após de ter morrido ao bordo, ser sepultado no mar. Como isso ficará para o espírito do pobre homem?

No livro não é feita referência à Segunda Guerra Mundial e, encerrando o livro no começo de 1943, a autora evitou ter de falar (i) do trato que os imigrantes japoneses receberam no Brasil após este país declarar guerra ao Japão, em agosto de 1942, (ii) da invasão anfíbia de Okinawa pelas forças americanas em 1945 e a ocupação de Okinawa, que foi mantido pelos americanos até 1972. Quem sabe ela abordará estes assuntos num romance futuro.

 

Avaliação

O livro tem capa e diagramação muito atraente e a seleção das fotos incluídas é ótima, já que todas as imagens têm relação com o texto. A fonte das fotos é o Museu Cultural de Okinawa, em Diadema, SP, um local que este leitor ficou curioso em conhecer após da leitura do livro.

Os capítulos são curtos e de leitura leve. Os mesmos não têm título, mas são numerados de 1 a 36: a cifra romana ao lado do caráter japonês, numa bela apresentação gráfica.

No livro são abordados vários ‘choques culturais’, dos quais mencionarei dois.

Quando, em junho de 1908, chegou no porto de Santos o primeiro navio de imigrantes japoneses, eles viram no céu balões coloridos e iluminados e havia fogos de artifício. Eles interpretaram isso como um sinal de bem-vindas e desceram do navio aliviados. A linda ilusão durou até o próximo dia, quando descobriram que tinham testemunhados ao fenômeno das festas juninas (p. 47-48).

Quando eu mesmo cheguei em Curitiba, em 1979, o primeiro português que aprendi (do novo vizinho, um descendente de italianos) foi: “Porca Madonna”. Com essa lembrança, o seguinte trecho de livro, me tocou. Trata-se da lembrança de um imigrante japonês, também da primeira leva em 1908, do que aconteceu na Casa de Imigrante em São Paulo (p. 51-52):

“As mocinhas mais animadas se interessavam em aprender o português. Apontavam o dedo para o próprio nariz, olhos, boca, orelhas, etc., e depois procuravam dizer as palavras que as mulheres de limpeza lhes ensinavam. A dificuldade era grande e elas procuravam pronunciar da forma como conseguiam, o que muito divertia as funcionárias.

Divididos em grupos, de acordo com as regiões de onde provinham, os imigrantes assinavam os contratos de trabalho e eram enviados, gradativamente, para as fazendas que lhes tinham sido destinadas. Os trens eram fretados especialmente para esse intento.

(…).

Uma das mocinhas estava ensinando aos que estavam ao seu redor as palavras que havia aprendida na hospedaria, quando passou por entre eles o intérprete destinado a acompanha-los. Vendo o entusiasmo da mocinha, pôs-se a ouvi-la e imediatamente interferiu na conversa, alertando-a de que o que ela estava dizendo eram palavras obscenas. Ela estatelou os olhos. Depois, numa indignação geral, constataram que as mulheres da hospedaria lhe haviam ensinado tudo errado, apenas para se divertir.

A mocinha perdeu o entusiasmo. Não ficou com raiva, mas afundou-se no banco duro do trem. Ficou tão acabrunhada e infeliz, como se sua dignidade tivesse se esvaído pelo chão, sendo triturada pelas duras rodas de ferro do trem.

Então, pensou nas suas amigas que certamente também passavam por dificuldades e vexames, usando as palavras recentemente aprendidas. “.

 

A revisora deixou passar alguns erros: (i) nenhum agricultor imigrante, num relato verbal de 1937, teria chamado a nossa floresta litorânea de “mata Atlântica” (p. 48); (ii) a mosca-de-berne deposita ovos, não larvas.

Encontrei algumas dissonâncias estilísticas: (i) o exercício lírico de descrever as nuvens fica um pouco esquisito neste tipo de livro; (ii) achei exagerado a descrição detalhadíssima da moda feminina japonesa dos anos trinta, mas aqui é fácil perdoar a autora, já que ela é estilista no setor de Alta Costura.

Na última frase da p. 115, o imigrante Kenhithi Akamine, faz uma promessa à sua parente Kaná, que não é cumprida neste livro. Aliás, Kenhithi é uma pessoa importante para o livro, pois durante a viagem de navio ao Brasil ele ensina aos leitores muitos fatos históricos. Depois da chegada no Brasil a sua personagem é simplesmente descartada (é mencionado apenas uma vez, na p. 139, numa frase muito artificial), o que é uma pena, pois o leitor teria gostado de saber como esse bibliotecário e intelectual tem se dado no duro trabalho braçal da fazenda de café.

 

Apesar dessas considerações, a produção deste livro é uma grande realização. Foi escrito com muita sensibilidade, sendo uma leitura interessante para qualquer imigrante neste país, provavelmente também para o público geral.


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