Carta 205. Ecoturismo em Curitiba na primavera


Após três semanas de permanência na baixada litorânea, cheguei em Curitiba na noite da sexta para sábado, para passar na capital o primeiro fim de semana da nova primavera: os dias 29 e 30 de setembro. Pretendi curtir a cidade como ecoturista, mas trabalhando como naturalista.

Como é bom estar no planalto no começo da primavera! Como foi delicioso também: encontrei no meu caminho por toda parte frutos bem maduros de amora (Morus nigra) e da amoreira-preta-da-europa (Rubus ulmifolius). E como são lindas as flores deste maracujá silvestre, Passiflora actinia, totalmente ausente do litoral, mas muito abundante aqui no planalto.

Percorrendo a beira da floresta, frequentemente se repara um cheiro forte de mel. Provém das fartas floradas do vacum (Allophylus edulis) e do guaçatunga (Casearia sylvestris).

Sendo início da primavera, os répteis voltaram a aparecer e, infelizmente, a serem mortos pelo tráfego. No domingo encontrei no Parque Iguaçu (Setor Pesqueiro) o lagarto sem pernas chamado cobra-de-vidro (Ophiodes sp.). Estava morto e quebrado.

Com as temperaturas agradáveis, naquele dia havia no Parque Iguaçu crianças tomando banho nas “cavas”, os seus pais na margem, pescando ou descansando, algumas borboletas voando, ainda nenhuma mutuca incomodando e o saci (Tapera naevia) cantando e observando tudo.

O início desta primavera na capital teria sido perfeito, se não fosse o odor dos rios na atual época de estiagem. Felizmente, na noite do domingo choveu um pouco e já no dia seguinte encontrei alguns cogumelos comestíveis bem frescos: Coprinus comatus, entre a grama, e uma espécie de Agaricus (“champignon”), na margem da floresta.

 

Ao fazer turismo em Curitiba, a minha mãe (que esteve ali nos verões de 1980 e 1990) e a mãe dela e a avó dela, todas teriam prestado muita atenção às flores. Resolvi honrar essa minha herança pelo lado materno…

Neste fim de semana, estendido para incluir a segunda-feira, pude observar em Curitiba 196 espécies de plantas floridas.(a) Deste total, 48 estavam ainda sem flores na última vez que visitei a cidade, há três semanas. Interpreto este aumento súbito e grande (24,5%!) em espécies floridas como um sinal de que a primavera na capital chegou para valer. As espécies que iniciaram a florada nessas últimas semanas foram listadas no Apêndice 1.

 

Ainda cheguei em tempo para poder assistir o início da florada da árvore mais plantada nas ruas de Curitiba: a exótica tipuana (Tipuana tipu). No sábado ainda estavam raras as flores caídas da sua copa e tinha de procurar bem para encontrar uma. Mas hoje já são abundantes e daqui a algumas semanas o chão abaixo desta árvore estará forrado de amarelo.

 

(a) As caminhadas turísticas foram feitas nos bairros Alto Boqueirão (região do Zoológico; na segunda-feira), Boqueirão (Parque Iguaçu, Setor Pesqueiro; no domingo), Jardim Social e Tarumã (no sábado).

 

REFERÊNCIAS

Heukels, H. & S.J. van Ooststroom. 1973. Flora van Nederland, 17de druk. Wolters-Noordhoff, Groningen. 911 pp.

 

Apêndice 1. As espécies de angiospermas que em Curitiba iniciaram sua florada de 2018 na segunda metade de setembro.(1)

Família Espécie Cor Flor Ho Procedência da espécie
Nome científico Nome comum
Amaryllidaceae Hippeastrum hybridum amarílis (L) Vo 10-11 hb EX
Anacardiaceae Schinus molle aroeira-salso (F, L) Br 9-10 arv PR
Apiaceae Petroselinum crispum salsa (F) Ve 9-11 hb EX (sudeste da Europa e norte da África)
Araliaceae Hydrocotyle bonariensis acariçoba-de-buenos-aires (F), acariçoba (L) Br 9-3 hb PR
Asteraceae Arctium minus bardana (L) Vi 9-4 hb EX (Europa e Ásia)
Argyranthemum frutescens margarida-de-paris (L) Am 9-11 hb EX (Ilhas Canárias)
Campovassouria cruciata Vi 9-12 arb PR
Chrysolaena platensis assapeixe (F, L) Vi 9-10 ah PR
Helianthus annuus girassol (L) Am 8-5 hb BR
Mutisia campanulata cravo-divino-alado (F) Vo 9-11 arb (tr) PR
Bignoniaceae Dolichandra unguis-cati unha-de-gato (F, L) Am 7-10 arb (tr) PR
Jacaranda mimosifolia jacarandá-mimoso (F, L) Vi 9-2 arv EX (Argentina,

Bolívia e Paraguai)

Tecoma stans bignonia-amarela (L) Am 9-11 arv EX (Antilhas)
Brassicaceae Coronopus didymus mentruz (L) Br 9-10 hb PR
Sisymbrium officinale Ve 5-6; 9-12 hb EX (Europa)
Cactaceae Rhipsalis floccosa conambaia (F) Br 9-10 hb (ep) PR
Caryophyllaceae Cerastium rivulare Br 9-10 hb PR
Silene gallica alfinete-da-terra (L) Br 7-12 hb EX (Mediterrânea do Velho Mundo)
Celastraceae Maytenus ilicifolia espinheira-santa (L) Br 9-10 arv PPR
Commelinaceae Tradescantia fluminensis trapoeraba Br 7-12 hb PR
Fabaceae Inga vera subsp. affinis ingá-de-quatro-quinas (F) Br 9-11 arv PR
Tipuana tipu tipuana (L) Am 9-1 arv EX (Bolívia e norte da Argentina)
Gesneriaceae Sinningia douglasii batata-de-árvore Vo 8-10 hb (ep) PR
Iridaceae Babiana stricta flor-de-veludo (L) Az 9-10 hb EX (África do Sul)
Gladiolus X hortulanus gladíolo, palma (L) Am, Vo 9-12 hb EX (Velho Mundo)
Iris germânica íris-barbado (L) Vi 9-10 hb EX (Europa)
Lamiaceae Ocimum carnosum alfavaca-campestre Vi 9-3 ah PR
Liliaceae Lilium longiflorum lírio-japonês (L) Br 9-11 hb EX (China e Japão)
Loranthaceae Struthanthus martianus erva-de-passarinho (F) Ve 1-5; 9-10 hb (pa) PR
Magnoliaceae Magnolia grandiflora magnólia-branca (F, L) Br 9-2 arv EX (Estados Unidos)
Malvaceae Sida cf. santaremensis guanxuma (L) Am 1; 9-10 hb PR
Meliaceae Melia azedarach árvore-de-santa-bárbara (L) Vi 9-11 arv EX (margem sul da Himalaia)
Myrtaceae Myrrhinium atropurpureum murtilho (F) Vo 8-11 arv PR
Orchidaceae Epidendrum fulgens Vo 2-3; 9-10 hb (ep) PR
Sacoila lanceolata Vo 9-10 hb PR
Plantaginaceae Veronica arvensis Az 9 hb EX (Europa)
Poaceae Chascolytrum sp. treme-treme (F) Ve 9-11 hb PR
Melica sarmentosa capim-trepador (F) Ve 9-10 hb (tr) PR
Melinis repens capim-favorito (F, L) Ve 4-5; 9-11 hb EX (África do Sul)
Primulaceae Anagallis arvensis subsp. arvensis bacuru-de-cores (F), escarlate (L) Vo 9-3 hb EX (Mediterrânea do Velho Mundo)
Ranunculaceae Ranunculus sardous (2) Am 7-10 hb EX (Europa)
Rosaceae Rubus erythroclados amoreira-branca (F) Br 7-11 arb (tr) PR
Rubiaceae Galium cf. nigroramosum Ve 9-12 hb PR
Salicaceae Casearia sylvestris var. sylvestris cafezeiro-do-mato (F), guaçatunga (L) Br 8-10 arv PR
Solanaceae

 

Solanum betaceum tomate-arbóreo (L) Br 4-5; 9-10 arv EX (Andes)
Solanum paranense joá-velame (F) Br 9-2 arb PR
Typhaceae Typha domingensis taboa (F), tabôa (L) Ma 9-11 hb PR
Xanthorrhoeaceae Hemerocallis X hybrida lírio-de-são-josé (L) Am 10-7 hb EX (Europa e Ásia)

(1)

Nome comum: fontes são os fascículos da Flora Ilustrada Catarinense, 1965 até o presente (F), e os livros de Harri Lorenzi e coautores (L).

Cor = Cor dominante das pétalas (ou, algumas vezes, tépalas), lemas (para as poáceas) ou “escamas florais” (para as ciperáceas). Para espécies de asteráceas com diferença de cor entre as corolas liguladas e as corolas tubulosas, é considerado somente a cor das corolas liguladas.

Am = amarela; Az = azul; Br = branca; La = laranja; Ma = marrom; Pr = preta; Ve = verde; Vi = violeta, purpuro, rosada; Vo = vermelha.

Flor = Período da florada no leste do Paraná (observações pessoais a partir de 2005), indicada pelos números correspondentes aos meses.

Ho = Hábito: arv = arborescente; arb = arbustivo; ah = arbustivo-herbáceo; hb = herbáceo; (tr) = “trepador”; (pa) = parasita ou hemi-parasita (herbácea); (ep) = epífita.

Procedência da espécie: PR = nativa do Paraná; BR = nativa do Brasil, mas não do Paraná; EX = exótica (não nativa do Brasil).

 

(2) Ranunculus sardous ainda não tem sido comunicado para o território brasileiro (veja: www.splink.org). Será que está sendo confundida com R. muricatus?

Ranunculus sardous difere de R. muricatus no hábito reptante, nas sépalas revolutas e nos aquênios mais numerosos, de tamanho menores e de superfície tuberculosa, não aculeada (Heukels & van Ooststroom, 1973). Tenho encontrado material fértil de R. sardous em 22/07/2006 (Piraquara, rua Coronel Manoel Alves) e 30/09/2018 (Curitiba, Parque Iguaçu, Setor Pesqueiro).

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