(Re)encontros 1


2017/08/28

Parque Municipal do Iguaçu, no trecho entre a Avenida Marechal Floriano Peixoto e o Zoológico, Curitiba, em pleno verão (2014/12/20).

Leiam nesta carta sobre a minha visita a este local há uma semana.

Amoras

Nos outonos da minha infância, quando a minha mãe tinha apenas os primeiros dos seus futuros oito filhos e o uso de agrotóxicos ainda não era tão onipresente, ela costumava levar a sua criançada para ajudá-la a colher amoras silvestres nos taludes dos fossos que circundavam as lavouras da granja. A espécie de amora colhida era Rubus caesius, que é abundante na parte da Holanda de terras argilosas. Os seus frutos maduros são azul-escuros e de superfície tipicamente fosca, glaucescente, como se fosse coberta de orvalho, daí os nomes vulgares dauwbraam (holandês) e dewberry (inglês). Durante a colheita do fruto tomamos muito cuidado, pois a planta é fortemente armada com acúleos afiados e recurvados. Mas essa pequena desvantagem é mais do que compensado pelo sabor formidável dos frutos, ligeiramente azedos, não muito doce, dos quais a minha mãe fazia uma geleia deliciosa.

Quando em 1979 cheguei em Curitiba e fui morar na “Reserva Natural Cambuí”,(a) situado no vale do rio Iguaçu, encontrei ali uma outra espécie de amora, produtora de frutos igualmente deliciosos, mas, neste caso, de cor preta quando madura. Tentei identificar a espécie usando as chaves de Heukels & Ooststroom (1973), na Flora que tinha trazido da terra natal e na qual são incluídas 63 espécies de Rubus. Infelizmente, com aquele livro não consegui identificar o material curitibano com total segurança.

Já naquela época a referida espécie de amora era bastante comum no município de Curitiba, inclusive dentro da cidade, em terrenos baldios e assim continua até hoje. O mistério da sua identidade só consegui resolver muitos anos depois, quando foi publicado o excelente fascículo “Rosáceas”, na Flora Ilustrada Catarinense. Nesta obra (Reitz 1996) são tratadas oito espécies de Rubus, das quais seis são nativas e duas exóticas cultivadas. Usando este livro pude identificar a espécie curitibana facilmente como Rubus ulmifolius, que é “natural dos países mediterrâneos europeus e africanos, Ilhas Canárias, Madeira e Açores; sul e oeste da Europa Central, estendendo-se até a Suécia” e cujos nomes vulgares são “amoreira-preta-da-europa, amoreira-preta-mediterrâneo, Mittelmeer-brombeere (Alemanha), zarzamora (Espanha)” (Reitz 1996).

Hoje, re-identificando esta amora de Curitiba com uma chave para todas as cerca de duzentas(!) espécies de Rubus encontradas na Holanda (Van de Beek 2014), posso afirmar que o nome que Reitz usa para a espécie é sem dúvida a melhor opção.(b)

Segue a descrição publicado por Reitz baseada no material catarinense de Rubus
ulmifolius, e sublinhados os meus acréscimos baseados no material curitibano. Coloquei entre “[…]” os poucos detalhes na descrição de Reitz que divergem das minhas próprias observações no material curitibano.

“Arbusto robusto, até 2,5 m de altura, sarmentoso, inclinado, ou procumbente, enraizando onde o ápice do caule encontra o chão.

Caule com espessura de até 20 mm próximo à base e com DAP (largura na altura do peito) de até 11 mm, cilíndrico, não angulado, não sulcado, [angulado, muitas vezes sulcado].

Ramos foliosos fortemente branco pubescentes, pelos não apressos, não glandulosos; superfície totalmente glaucescente de branco; acúleos uniformes, robustos, até 9 mm de altura, de base longa (6 x 3 mm), uniformes, patentes até falcados, pubescentes.

Folhas alternas, pecíolo 15-50 mm de compr.; raque 20-100 mm de compr., canaliculado.

Estípulas concrescidas com o pecíolo, 11-15 x 1,5-3,5 mm, atenuadas para o ápice agudo, de margem inteira, verdes, ou com as margens rosadas, pubescentes.

Folíolos 5-7, [3-5], opostos, firmes, pecíolos 0,5-2 mm de compr., pecíolo dos folíolos basais 2-3 mm de compr., pecíolo do folíolo terminal 10-15 mm de compr, lâminas verde-escuros, glabros em cima, branco-tomentosos por baixo, convexos, plicadas nas nervuras, variadamente dentados, [coriáceos], cada dente e o ápice do folíolo terminando em seta de 1 mm de compr.; folíolo terminal ovado, ou suborbicular a obovado, 25-70 x 12-40 mm.

Inflorescência uma cima terminal, muitas vezes comprida e estreita, às vezes piramidal, foliada na base, com ramos patentes e pedicelados, grandes; raque fortemente branco pubescente, sem pelos glandulosos, com acúleos ≤ 4 mm de altura, de base larga (≤ 3 x 1,8 mm), patentes a falcados, pubescentes. Algumas flores solitárias, na axila foliar.

Flores: cálice profundamente 5-7 lobado, persistente, sépalas triangulares, 5 x 2,5-3 mm, agudas, deflexas após a antese, às vezes levemente aciculados, branco-tomentosas, margem não nitidamente separada; pétalas 5-6 (-8), [enrugadas], caducas, orbiculares, ou ovadas, [às vezes recortadas no ápice], 4,5 x 4 mm, roxas, [róseas ou ocasionalmente brancas]; estames numerosos, [brancos, ou róseos], de filetes róseas, brancos somente nos estames externos, todas as anteras púrpuras, estames igualando, ou apenas excedendo os estiletes; anteras glabras; pólen totalmente fértil; estiletes verdes, róseos, ou brancos, estigma simples. Carpelos pubescentes, muitas vezes tomentosos.

Frutos drupas, ao madurecer vermelho,
quando maduros negro-brilhantes, compostos de drupéolas aromáticas; drupéolas 2,5 x 2 mm, fortemente agregadas entre si; receptáculo
cônico, 5 (largura) x 3 (altura) mm; fruto maduro 15 (largura) x 13 (altura) mm
; sépalas adnatas a reflexas no fruto maduro.”

Rubus ulmifolius é “cultivado no leste e sul do Brasil, bem como no Uruguai, Argentina e Chile” e tem as seguintes utilidades: “produz forte carga de frutos aromáticos e saborosos. Produz geleias, caldas, vinhos e licores. As folhas e raízes são adstringentes, preconizadas para diarreia crônica, disenteria, estomatite e angina. As flores brancas são utilizadas em hemoptises e hemorroidas; em forma de gargarejo nas enfermidades da boca e inflamações da garganta. Externamente ambas são usadas para loções tônicas.” (Reitz 1996).

Além de Rubus ulmifolius, encontrei em 1979 na Reserva Natural Cambuí duas outras espécies de Rubus, ambas comuns no local. A primeira tinha frutos maduros vermelhos e folhas pinadas, compostas de 3-7 folíolos e era facilmente identificável como Rubus rosifolius. A outra espécie tinha frutos maduros verde-amarelados, folhas compostas de 3-5 folíolos totalmente glabras e râmulos cobertos de cerdos vermelhos. Daquela espécie o nome permaneceu incógnito para mim até a publicação do referido livro de Reitz, com o qual ela foi identificada como R. erythroclados. Como principal nome vulgar, Reitz (1996) apresenta framboesa-silvestre para a primeira espécie e amoreira-branca para a segunda.

Na floresta com araucária vizinha à Reserva Natural Cambuí havia ainda uma quarta espécie de Rubus, parecida com R. erythroclados, mas distinguindo-se dela pelos folíolos pubescentes e menos estreitos e pelos râmulos não cerdosos, apesar de tomentosos. Usando Reitz 1996 e Kiyama & Bianchini 2003, ela pode ser identificada como R. brasiliensis, por Reitz denominada de amoreira-branca também.

Rubus rosifolius é muito comum tanto no Primeiro planalto quanto no Litoral, mas as duas espécies de amoreira-branca parecem não curtir o clima quente do Litoral, pois lá nunca as encontrei.

Reencontros

A Reserva Natural Cambuí foi a minha residência de 1979 a 2000 e nos meus primeiros anos ali fiz um levantamento bastante completo dos macrofungos (cogumelos) e das aves daquela área. Logo no primeiro ano criei também um herbário com exsicatas de material fértil da maioria das espécies de plantas vasculares da Reserva. Este material foi então entregue a uma especialista em Curitiba, do qual nunca recebeu as identificações e não tenho a certeza se este herbário foi preservado.

A partir de 2003, quando me mudei para o litoral, eu mesmo gradualmente aprendi a identificar as plantas vasculares e com a experiência adquirida resolvi revisitar o local da minha antiga moradia curitibana, para finalmente descobrir quais espécies de plantas por tantos anos foram os meus pacíficos, pacientes, lindos, muito amados vizinhos.

Fiz esta visita à Reserva Natural Cambuí há exatamente uma semana, na tarde de 12/08/2017 e como possam imaginar, foi um reencontro MUITO emocionante! O tempo, durante esta visita, nem poderia ter sido melhor: havia sol e as borboletas estavam voando. Foi espetacular encontrar duas espécies de animais que não ocorriam ali ao longo do período da minha residência: um par de capivaras (Hydrochoerus hydrochaeris) adultos e um solitário tapicuru-de-cara-pelada (Phimosus infuscatus). Mas houve também uma grande decepção: naquele local, o rio Iguaçu continua gravemente poluído, parecendo-se um esgoto a céu aberto. Além disso, algum sujeito tinha aproveitado a atual estiagem para pôr fogo na floresta: um trecho na margem da Avenida Comendador Franco, duzentos metros ao norte do portal da entrado do munícipio vizinho, encontrava se todo carbonizado.

Nos próximos dias matei também a saudade em dois outros terrenos que, junto com a Reserva Natural Cambuí, atualmente fazem parte do Parque Municipal do Iguaçu. Trata-se da região do vale do rio Iguaçu entre a Avenida Marechal Floriano Peixoto e o Zoológico (ver foto de abertura desta carta), uma área que visitei em 13/08/2017, e a região da floresta com araucária ao redor do Zoológico, que visitei em 14/08/2017. Também estas duas visitas foram reencontros formidáveis, pois no período de 1984 a 1986 eu estava ali quase diariamente, fazendo o meu levantamento das aves e das plantas lenhosas. Naquele trabalho, feito há trinta anos, também produzi um herbário e as exsicatas foram identificadas na época pelos botânicos curitibanos Gerdt Hatschbach e José Tadeu Motta.

Após ter residido por tantos anos no litoral (2003-2017), foi muito bom rever as plantas do vale do Iguaçu, na chamada Floresta Ombrófila Mista Aluvial, e dos arredores do Zoológico, na chamada Floresta Ombrófila Mista Montana. Nestas visitas tive a sorte de testemunhar o início da florada de várias espécies muito abundantes, como branquilho, vacum e flor-das-almas.

Na área visitada em 13 de agosto encontrei mais um par de capivaras adultos e também um par do tapicuru-de-cara-pelada. Estas duas espécies parecem ter se tornados relativamente comuns na região!

Borboletas

Em todas estas três caminhadas no Parque Municipal do Iguaçu (12, 13 e 14 de agosto) teve sorte com o tempo: havia sol e não choveu. Assim, mesmo estando no meio do inverno, sempre havia borboletas. Vi um total de 15 espécies, pertencendo a Hesperiidae (4 espécies), Pieridae (3) e Nymphalidae (8). Todos os hesperiídeos estavam visitando flores (três pirgíneos nas flores do limão, e uma, Autochton zarex, nas flores de Rubus ulmifolius), como também todos os pierídeos: Leptophobia aripa (curuquerê-da-couve) nas flores de Taraxacum sp. e Tropaeolum majus; Phoebis argante (gema-de-ovo) nas flores de Impatiens walleriana; e Eurema deva (canarinho) nas flores de três asteráceas: Hypochaeris radicata, Taraxacum sp. e Tithonia diversifolia. Das nimfalídeos, duas espécies estavam visitando as flores de Bidens alba, uma espécie (Eunica margarita) estava sugando a terra argilosa úmida e as outras cinco estavam em voo de namoro (Hermeuptychia sp.), voo territorial, ou simplesmente descansando (Zaretes itys).

É impressionante que, com a exceção de Bidens alba, são exóticas todas as plantas com flores visitadas por borboletas no meio do inverno!

A borboleta mais encontrada nas visitas ao vale do rio Iguaçu de 12 e 13 de agosto foi Eurema deva. Segundo a literatura, as larvas desta espécie se alimentam de plantas da tribo Cassieae, um grupo de leguminosas que no vale do Iguaçu é representado por três espécies de Senna, das quais S. neglecta (fedegoso) é localmente a mais abundante.

Plantas vasculares

No período de 12 a 27 de agosto de 2017 (metade do inverno) encontrei no Parque Municipal do Iguaçu e na zona urbana de Curitiba (bairros Butiatuvinha, Centro, Hauer, Jardim das Américas, Tarumã e Vista Alegre) um total de 256 espécies de plantas vasculares no estado fértil, isso é, com flores, frutos ou esporângios. Destas espécies, 106 são nativas do Primeiro planalto paranaense, 10 são provenientes de outras partes do Paraná e do Brasil, e o restante (140 espécies) são exóticas.

Encontros

Nos jardins de Curitiba, as plantas floridas que mais chamam a atenção neste momento, pela abundância e pela conspicuidade das suas flores, são azaleia (Rhododendron simsii), coroa-de-espinho (Euphorbia milii), bico-de-papagaio (Euphorbia pulcherrima) e as moreias (Dietes spp.), todas exóticas.

Na Rua XV de Novembro estão em magnífica florada as cerejeiras-do-japão, patas-de-vaca e uma solitária quaresmeira (Tibouchina granulosa) e nas abundantes floreiras ali têm petúnias, cravos e uma outra flor que eu desconhecia. Perguntei a várias pessoas que ali passavam, se conheciam o nome desta planta, porém ninguém sabia, com a exceção de uma jovem de descendência japonesa. Ela chamou a planta de “beijo-japonês”. Perguntei: “Porque japonês?” Ela respondeu: “Porque a flor é grande.” Ri bastante e pensei: “Um beijo japonês é você
mesma, flor querida”. Pois para mim, a planta na floreira não tinha nada a ver com o beijo que conhecemos tão bem: Impatiens walleriana, da África.

Então cheguei no fim da Rua XV e entrei nas Livrarias Curitiba, para consultar a Bíblia de Lorenzi (2015). Através daquela grandiosa obra descobri rapidamente que se tratava mesmo de uma espécie de Impatiens. Aquela flor provida de um esporão comprido e delgado pertence a Impatiens hawkeri, denominada de beijo-pintado em Lorenzi.

Então tinha rido à toa; a moça estava com toda razão! Já que a espécie é originária das Ilhas dos Mares do Sul, o nome que ela usou, beijo-japonês, é ótimo! “Beijo-sulpacífico” teria sido melhor ainda.

Gostaria de fazer uma sugestão à Prefeitura. Seria muito bom se naquela famosa e agitada rua de pedestres, apelidada de Rua das Flores, fosse colocada uma plaquinha informando os visitantes, em cada estação do ano, quais espécies de flores estão nas floreiras para alimentar a nossa alma.

(a) A “Reserva Natural Cambuí” foi criada em 1978 pela ONG Associação de Defesa e Educação Ambiental (ADEA). A sua sede (incluindo a minha residência) ficava na Avenida Comendador Franco 9555, no bairro Uberaba, entre o canal do Iguaçu retificado e o antigo curso do rio Iguaçu, que forma a divisa com o município de São José dos Pinhais. Aquela Reserva Natural Cambuí, situada em Curitiba, não deve ser confundida com o “Parque Natural Municipal Cambuí”, também em Curitiba, mas localizado na margem do rio Barigui, bairro Fazendinha e criada pela Prefeitura em 2007.

(b) Segundo Van de Beek (2014), na Holanda, Rubus ulmifolius Schott 1818 é a única representante da série Gypsocaulon (P.J.Müll. ex Sudre) W.C.R.Watson ex A.Beek, pertencente a subseção Appendiculati Genev., da seção Rubus, do subgênero Rubus.

AGRADECIMENTOS

– a Fernando B. Matos (UFPR, Curitiba), pela identificação do cacto Pereskia aculeata;

– a Juarez Cordeiro (MBM, Curitiba), pela identificação da asterácea Xanthium strumarium;

– a Renato Goldemberg (UFPR, Curitiba), pela identificação da melastomatácea Heterocentron subtriplinervium, uma espécie muito curiosa;

– a Eliane (Quatro Barras), pela identificação do beijo-da-ruadasflores;

– a Juliana (InterAmericano, Curitiba), por ter feito uma cuidadosa leitura final desta carta.

REFERÊNCIAS

Heukels, H. & S.J. van Ooststroom. 1973. Flora van Nederland, 17de druk. Wolters-Noordhoff, Groningen. 911 pp.

Kiyama, C.Y. & R.S. Bianchini. 2003. Rosaceae. Em: Wanderley, M.G.L., G.J. Shepherd, T.S.A. Melhem, A.M. Giulietti & M. Kirizawa (Eds.). Flora fanerogâmica do estado de São Paulo, Vol. 3. Instituto de Botânica, São Paulo, pp. 285-293.

Lorenzi, H. 2015. Plantas para jardim no Brasil: herbáceas, arbustivas e trepadeiras, Ed. 2. Edit. Plantarum, Nova Odessa. 1120 pp.

Reitz, R. 1996. Rosáceas. Flora Ilustrada Catarinense, I Parte. As plantas. Fascículo: ROSA. 135 pp.

Van de Beek, B. 2014. Systematische sleutel voor de Nederlandse soorten van het genus Rubus L. Gorteria 36: 194-216.


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