Cartinha – Raia 3


2017/06/28


Rainha tirada da bolsa da sereia (mermaid’s purse) na qual se encontrava morta. Praia do Santinho, Ilha de Santa Catarina (03/06/2015) (FOTO: Donald Schause). Trata-se, provavelmente, da raia-santa Atlantoraja cyclophora (Arhynchobatidae); as duas manchas (ocelos) negras (uma em cada lado das nadadeiras), uma característica desta espécie, estão bem visíveis no filhote.

Dedico esta carta à família Raia: as rainhas Rayanne e Raissa, a sereia Marlene,

e Geovany, que hoje está raiante no Céu.

Nunca fui pescador, mergulhador ou aquarista e, assim, o meu conhecimento do Grande Mundo dos Peixes tem permanecido quase zero. Da enorme variedade das espécies existentes obtive uma pequena ideia através dos aquários do Passeio Público, do Mercado Municipal e da casa da família Roch (“Raia”),(a) todos em Curitiba e pelos exemplares vistos na vitrine da peixaria e encontrados mortos na praia.

No meu último aniversário, a Mãe Natureza me presenteou com um vislumbre da sua parte abaixo da cintura: o mundo subaquático. Na cidade de Guaraqueçaba, a poucos metros do píer “trapiche da marina”, encontrei na maré-baixa as sobras de uma raia, ali deixada no meio do capim-praturá (Spartina alterniflora). A carcaça, totalmente descarnada, ainda estava sendo bicada por alguns exemplares do urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus). Próximo à carcaça, o solo da marisma estava relativamente firme, o que me possibilitou chegar lá, para medir e fotografar. A largura do esqueleto cartilaginoso da cabeça era 25 cm e o comprimento total do animal, da face anterior do crânio à ponta da cauda muito comprida, era 233 cm. Das grandes nadadeiras peitorais, absolutamente nada tinha sobrado. Enquanto fazia essas medidas, apareceu um grupo de rapazes e lhes perguntei de qual espécie se tratava e como tinha chegado ali. Eles não sabiam, mas julgavam que era um exemplar capturado por pescadores locais, que tinham retirado a carne e jogado ali o restante para os comedores de carniça. Após vinte minutos apareceu um adulto, que confirmou esta hipótese: ele disse que ele mesmo, junto com amigos, tinha pescado a raia dentro da baía e que era uma raia-manteiga.

Perguntei quais outras espécies de raias ele já tinha encontrado no interior da baía e, nas semanas seguintes, fiz a mesma pergunta também a vários outros pescadores da cidade de Guaraqueçaba e também da cidade de Antonina.

Como ocorrentes na baía, estes pescadores mencionaram as seguintes espécies (ordem alfabética):

1) raia-lixa, que tem a pele do dorso muito escura e áspera e a carne branca, dura, de cheiro forte.

2) raia-manteiga, que apresenta a pele do dorso muito escura, mas quase lisa e a carne avermelhada, além de macia (daí “manteiga”), de cheiro ameno.

3) raia-viola, que tem a pele do dorso creme, com carne branca, não macia. Aliás, a totalidade destes pescadores usa o nome “cação-viola”, já que estão convencidos de que se trata de uma espécie de tubarão. Na realidade, é uma raia, pois as aberturas branquiais são ventrais e as nadadeiras peitorais são fundidas na cabeça. Nos tubarões, as aberturas branquiais são laterais e as nadadeiras peitorais são destacadas da cabeça (Storer et al. 1984).

4) ticonha.

5) treme-treme = raia-elétrica.

Segundo o dicionário Novo Aurélio (Ferreira 1999), estes nomes representam as seguintes espécies:

1) raia-lixa: “Dasyatis guttata, do Atlântico, de dorso escuro, ventre branco-amarelado, cauda três vezes mais longa que o corpo, e com uma série de acúleos sobre a linha mediana do corpo até o ferrão caudal”. Von Ihering 1968 acrescenta: “Os exemplares jovens [da arraia-lixa, D. guttata] têm a pele lisa, porém, ela se torna áspera e em alguns pontos é comparável à lixa.”

2) raia-manteiga: “Designação comum às espécies Dasyatis say e Gymnura altavela, do Atlântico, (…)”.

3) os nomes raia-viola e cação-viola estão ausentes do Novo Aurélio.

4) ticonha: “(…) Rhinoptera (…), do Atlântico, de dorso oliváceo, abdome claro e cauda bastante comprida, com um longo ferrão na base.”

5) treme-treme, raia-elétrica: “(…), Narcine brasiliensis, do Atlântico ocidental, de dorso pardo zebrado e abdome branco. (…). Tem órgão elétrico, capaz de imobilizar pequenas presas, (…).”

No valioso livrinho “Tubarões e raias capturadas pela pesca artesanal no Paraná”, de Bornatowski & Abilhoa (2012), estes nomes vulgares são tratados como as seguintes espécies:

1) o nome raia-lixa está ausente de Bornatowski & Abilhoa 2012. Estes autores chamem a raia-lixa do Novo AurélioDasyatis guttata (família Dasyatidae) – de “raia-chicote”. Nenhum dos pescadores por mim entrevistados utiliza o nome raia-chicote. Nas espécies de Dasyatidae, a face anterior do crânio é convexa (Nelson 1994).

2) raia-manteiga: Dasyatis hypostigma.

3) raia-viola: duas espécies de Rhinobatos (família Rhinobatidae).

4) ticonha: duas espécies de Rhinoptera (família Rhinopteridae), ambas também sendo chamadas de raia-cachorro devido a forma da cabeça. Nas espécies de Rhinopteridae, a face anterior do crânio é côncava (Nelson 1994).

5) raia-treme-treme: Narcine brasiliensis (família Narcinidae).

No Volume 2 da sublime obra “Guaraqueçaba; mar e mato” (Alvar & Alvar 1979) são incluídos desenhos de duas espécies de raias:

– na lâmina 181 (fig. a) é mostrado Rhinobatos percellens (a espécie é bem identificável da figura, já que não mostra tubérculos isolados e contáveis na linha mediana). Júlio Alvar a desenhou em Ponta da Mariana, Ilha Rasa, em 1974 e na legenda (pág. 11) ele a identifica como “cação viola”. Em outro desenho (lâm. 201 fig. a), também feito em Ponta da Mariana, são mostradas duas mulheres “limpando cação viola”.

– na lâmina 192 (fig. d-f) é mostrado Rhinoptera brasiliensis (bem identificável pelas figuras, já que o autor mostra o animal tanto do lado de cima [fig. d, e] quanto de baixo [fig. f] e no último desenho se vê que a zona de placas dentárias é bem alongada). Júlio Alvar a desenhou na cidade (“vila”) de Guaraqueçaba, em 1974 e na legenda (pág. 11) ele a identifica como “raia”.

Entre as pessoas que eu entrevistei, um pescador de Antonina mencionou que já pescou na baía uma raia de cor “verde”. Segundo Carvalho Filho (1999) e o Novo Aurélio, as ticonhas (gênero Rhinoptera) podem ter o dorso oliváceo. Assim, creio que pode se tratar desta raia.

Somando todas estas informações julgo que, dentro do Complexo Estuarino da Baía de Paranaguá, OCORREM AS SEGUINTES ESPÉCIES DE RAIAS (citações entre aspas provém de Bornatowski & Abilhoa 2012):

Dasyatis guttata: a raia-lixa do Novo Aurélio e, imagino, dos nossos pescadores locais. “(…) Alguns exemplares chegam a medir 2 metros de comprimento de disco (largura das nadadeiras). Possuem um grande e perigoso ferrão no dorso da cauda, ocasionando sérios acidentes com pescadores. Alimentação: vermes poliquetas, moluscos, peixes e crustáceos.”

Dasyatis hypostigma: a raia-manteiga de Bornatowski & Abilhoa 2012. Segundo Santos & Carvalho 2004, o comprimento total máximo conhecido para esta espécie é 104,5 cm e a largura máxima é 58 cm. Assim, é bem menor do que a espécie anterior.

Narcine brasiliensis: a treme-treme ou raia-elétrica de todas as fontes. “Alimentaçaõ: basicamente poliquetas e pequenos crustáceos, raramente peixes”.

Rhinobatos percellens: o cação-viola dos pescadores locais. “Espécie costeira, podendo ser encontrado até 100 m de profundidade. Pode alcançar 1,1 m de comprimento. Alimentação: siris, camarões e peixes.” Esta é a única espécie de raia que Loyola e Silva & Nakamura 1975 incluíram na sua lista das “principais espécies de pescado” do litoral paranaense. Uma congênere, R. horkelii, que pode alcançar 1,3 m de comprimento, foi incluída no Livro Vermelho da Fauna Ameaçada de Extinção no Estado do Paraná (Abilhoa & Duboc 2004).

Rhinoptera brasiliensis: a ticonha de todas as fontes. Além de R. brasiliensis é muito comum no litoral do Paraná também a ticonha R. bonasus. As duas espécies “podem chegar a 90 cm de largura. São encontradas de 1 a 22 m de profundidade. Alimentação: moluscos e crustáceos. Formam grandes cardumes e podem ser capturados inúmeros indivíduos em um só lance de pesca.”

Agora voltando ao assunto daquela carcaça encontrado jogada na marisma em Guaraqueçaba: devido ao seu tamanho grande (233 cm de comprimento total), a cauda muito longa e fina (veja a foto de 2 de junho) e o fato da face anterior do crânio ser bastante convexo (veja a foto de 16 de junho), trata-se certamente de uma espécie de Dasyatis, provavelmente Dasyatis guttata,
que corresponde à raia-chicote de Bornatowski & Abilhoa (2012), à raia-lixa de Ferreira (1999) e a arraia-lixa de Von Ihering (1968). Na espécie D. americana, também ocorrente no Sul do Brasil (Santos & Carvalho 2004) e vulgarmente conhecido como raia-prego (Houaiss & Villar 2001) ou arraia-prego (Von Ihering 1968), a cauda é relativamente mais curta.


Carcaça de uma espécie de Dasyatis, provavelmente D. guttata (raia-chicote, raia-lixa), na marisma ao lado do píer “trapiche da marina”; cidade de Guaraqueçaba (2017/06/02). A largura do crânio é 25 cm e o comprimento total (face anterior do crânio à ponta da cauda) é 233 cm.


A mesma carcaça da foto anterior, no mesmo local, duas semanas depois (2017/06/16). Nesta foto é visível que a face anterior do crânio é cônica e o comprimento do conjunto crânio-tórax é aproximadamente três vezes a largura do crânio.

A respeito da distribuição das espécies de raias na Baía de Paranaguá, os pescadores entrevistados me informaram que a treme-treme ocorre somente na entrada da baía, de águas profundas, enquanto raia-viola (“cação-viola”), raia-lixa, raia-manteiga e ticonha alcançam as partes mais internas da baía, onde podem ser encontradas em locais de água rasa, inclusive na entrada dos rios.

Fui informado também que, no interior da baía, as raias são pescadas de espinhel, e as espécies comercialmente mais interessantes são raia-viola e raia-manteiga. A treme-treme, quando cai na rede de um pescador, é jogada de volta no mar, já que ela se defende produzindo choques elétricos (cerca de 40 volts; Bornatowski & Abilhoa 2012).

Sr. Juarez, pescador e também barqueiro para a Secretaria de Saúde de Guaraqueçaba, contou-me que não se lembra de pessoas feridas pelo ferrão de raias na cidade de Guaraqueçaba, mas ele já foi buscar vítimas do ferrão de raias na Ilha Rasa. Segundo ele, as vítimas tendem a ser os próprios pescadores, pois os acidentes acontecem quando as raias são puxadas a bordo. Haddad Jr. et al. 2013 oferecem um bom e bem ilustrado resumo do conhecimento sobre acidentes com o ferrão de raias no Brasil, desde a descoberta do continente americano pelos europeus.

No capítulo sobre a pesca de “biraguay” (miraguaia, Pogonias cromis), Platzmann (1872, 2010) menciona que na baía de Paranaguá ocorre a raia Trygon aiereba, mas este é um engano, pois aquela espécie (hoje tratada como Paratrygon aiereba) é restrita ao bioma Amazônia e é exclusivamente de água doce.(b) Sem dúvida, Platzmann se referiu a uma das espécies estuarinas listadas acima.

As raias, junto com os tubarões, distinguem-se dos outros peixes por terem um esqueleto formado por cartilagem. Na costa e no oceano em frente ao litoral paranaense já foram registradas nada menos que 32 espécies de raias e 51 espécies de tubarões (Bornatowski & Abilhoa 2012).

Os membros da maioria das famílias de raias e tubarões são vivíparos (dão nascimento a filhotes vivos), mas existem algumas famílias de raias e tubarões cujas espécies são ovíparas.

As cinco ou seis raias mencionadas acima como ocorrentes no interior do Complexo Estuarino da Baía de Paranaguá são todas vivíparas.

As raias ovíparas pertencem a duas famílias: Arhynchobatidae e Rajidae. Os membros da primeira família têm o focinho mole e flexível e o rostro mais ou menos reduzido, enquanto aqueles da segunda têm focinho rígido e rostro não reduzido (Last et al. 2016). Na Europa ocorrem 3 espécies da Arhynchobatidae e 30 da Rajidae (Nieto et al. 2015). Na costa do Brasil ocorrem 11 espécies e cinco gêneros em ambas as famílias e deste total de 22 espécies, a metade (duas Arhynchobatidae e nove Rajidae) foram somente descritas a partir da metade do século XX (fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_peixes_do_Brasil#Rajiformes; acesso em junho de 2017).

As raias ovíparas depositam cápsulas ovígeras, de parede córnea. Receberam os nomes vulgares de raia-emplastro e raia-santa (Bornatowski & Abilhoa 2012, Figueiredo 1977). Os filhotes permanecem dentro da cápsula pelo menos quatro meses, as vezes até mais de um ano (Burton 1971, Carvalho Filho 1999). Não é raro encontrar uma cápsula ovígera vazia na praia, onde foi jogada pelo mar. Como as cápsulas variam de tamanho e detalhes da morfologia entre as espécies, é possível elaborar chaves para a sua identificação. Tais chaves existem para regiões geográficas limitadas, como a Holanda, em cuja praia marítima são encontradas cápsulas de um total de 13 espécies: duas de tubarões da família Scyliorhinidae (gênero Scyliorhinus) e 11 de raias da família Rajidae (Bor 1998, Ruijter & Schoenmaker 1989). Destas raias, cinco pertencem ao gênero Raja e o restante é distribuído por cinco outros gêneros (Nieto et al. 2015).

As cápsulas ovígeras das raias são distinguíveis daquelas de tubarões pela seguinte característica: nas raias, cada um dos quatro cantos da cápsula possue um corno (chifre), enquanto nos tubarões da família Scyliorhinidae os quatro cantos terminam num longo fio fortemente enrolado (lembrando uma gavinha) e servindo para ancorar a cápsula no substrato, geralmente algas (Bor 1998). Entretanto, na costa atlântica da América do Sul existe um caso intermediário: nas raias do gênero Sympterygia (família Arhynchobatidae), a cápsula possue cornos nos cantos anteriores, como nas raias, e possue uma extensão filiforme e enrolada nos cantos posteriores, como nos tubarões (Oddone & Vooren 2008).

Uma chave para a identificação das cápsulas ovígeras de seis espécies de raias da família Arhynchobatidae, todas endêmicas do Atlântico Sudocidental e ocorrentes na costa brasileira, foi apresentado por Oddone & Vooren 2008. Esta chave inclui duas espécies de Sympterygia, todas as três espécies conhecidas de Atlantoraja e a única espécie conhecida de Rioraja.

Para a identificação das cápsulas ovígeras de raias temos de fazer as seguintes medidas e escolhas:

[a] medidas (em mm):

– tamanho (comprimento x largura) da cápsula

– comprimento dos cornos (chifres) anteriores

– comprimento dos cornos posteriores (podem ser bem mais longas que os anteriores)

[b] escolhas:

– forma da cápsula retangular ou afilada (cônica)

– quilha lateral presente (caso sim, medir a sua largura) ou ausente (então margem plana)

– face ventral e face dorsal igualmente convexos, ou a face ventral mais achatada do que a dorsal (podendo até ser ligeiramente côncava)

– superfície lisa ou com estriamento e/ou pequenos declives. Se houver estriamento: é fina ou mais grosso; é longitudinal ou transversal

– superfície brilhante ou fosca

– cor negra, marrom (qual tonalidade), olivácea ou outra

– cornos anteriores retos ou curvados para dentro (pouco curvados ou fortemente curvados formando gancho)

– cornos posteriores terminando em fio enrolado ou não

– véu (consistindo de fibras, para a adesão ao substrato) presente na face ventral da cápsula (qual a sua localização exata), ou restrita aos cornos posteriores

As cápsulas encontradas na praia, geralmente vazias, são conhecidas como “mermaid’s purse”: bolsa da sereia. Ao encontrar uma, a “polícia científica” nos pede para fazer o registro completo, anotando data, local exato e fazendo as medidas e escolhas do esquema apresentado acima. Assim podemos ajudar na posterior identificação da sereia proprietária. É mais uma forma para combinar o útil ao agradável de um passeio na praia.

A alguns dos pescadores da Baía de Paranaguá entrevistados mostrei figuras de cápsulas ovígeras de raias e tubarões (usei as figuras em tamanho natural contidas em Ruijter & Schoenmaker 1989) e todos afirmaram desconhecer este tipo de estrutura. Isto pode significar que as cápsulas de raias não aparecem nas praias do interior da baía, sendo encontradas apenas na praia “de fora”.

O amigo Donald uma vez encontrou, e fotografou, numa praia da Ilha de Santa Catarina, a cápsula ovígera de uma raia com o filhote morto dentro. Provavelmente, tratou-se de Atlantoraja cyclophora (Arhynchobatidae), pois as duas manchas (ocelos) negras (uma em cada lado das nadadeiras), uma característica desta espécie, estavam bem visíveis no filhote. Esta foto, bastante única, é mostrada na abertura desta carta.


Cápsulas ovígeras pertencentes a diversas espécies de raias. As cápsulas foram encontradas e coletadas por Donald Schause em várias datas a partir de 2015, sempre na praia do Santinho, Ilha de Santa Catarina.
(FOTO de 04/02/2016: Donald Schause).

A cápsula maior, com tamanho 9 x 6,5 cm, superfície lisa e sem estriamento, presença de quilha lateral e com cornos anteriores de 5 cm de comprimento, pode pertencer a Atlantoraja castelnaui (raia-emplastro-pintada, raia-chita; Arhynchobatidae).

Logo ao lado da cápsula maior tem duas cápsulas com tamanho 4-5 x 2,5 cm, nítido estriamento longitudinal e véu abundante e com os cornos anteriores de 3,5 cm de comprimento. Pode pertencer a Atlantoraja cyclophora (raia-santa, raia-emplastro; Arhynchobatidae), a mesma mostrada na foto de abertura desta carta.

As duas cápsulas na quinta fileira vertical, com tamanho 2,5-3,5 x 2,5 cm, superfície lisa e sem estriamento, sem véu visível na cápsula e tendo os cornos posteriores terminando em fio, pode pertencer a Sympterygia acuta (raia-emplastro; Arhynchobatidae).

Entre as raias mais fascinantes estão as jamantas, uma família (Mobulidae) da qual três espécies foram incluídas no Livro Vermelho da Fauna Ameaçada de Extinção no Estado do Paraná (Abilhoa & Duboc 2004). Dessas três espécies de Mobula, duas tem até 2 m de comprimento, enquanto a última, Mobula birostris (Manta birostris), pode alcançar pelo menos 7 m de largura, talvez até 9,1 m (Last et al. 2016).(c) A ocorrência desta gigante no litoral paranaense já foi mencionada em Platzmann 1872. O Sr. Orácio Cunho, com 84 anos e residente nato do povoado de Morato, me contou que há um quarto de um século, quando estava residindo na Ilha das Peças, capturaram ali na rede um exemplar desta espécie pesando “duas toneladas”.(d) A Ilha das Peças continua um local com boa chance de observar esta espécie, principalmente a partir do povoado Vila das Peças.(e) Durante maré alta a espécie pode aparecer mais baia adentro e recentemente foi vista a partir da Ponta do Morretes, na cidade de Guaraqueçaba (secretário da Colônia dos Pescadores Z-2, com. pess. 2017).

(a) A palavra alemão Roche significa: raia.

(b) Raias de água doce, todas pertencentes à família Potomotrygonidae, são ausentes do litoral paranaense, e também da bacia do Rio Iguaçu (Baumgartner et al. 2012, Severi & Cordeiro 1994), mas são amplamente distribuídas na bacia Paraná-Paraguai, onde são representadas por várias espécies do gênero Potamotrygon (Loboda & de Carvalho 2013). As espécies de Potamotrygon possuem um conjunto de dois ferrões na base da cauda e na Bacia do Alto Paraná tem causado numerosos acidentes entre banhistas e pescadores (Garrone Neto & Haddad Jr 2010).

(c) Durrell & Durrell 1985 fornecem um belo relato pessoal a respeito desta espécie: “A jamanta é um dos mais estranhos de todos os peixes a serem vistos no mar aberto. É moldado em um triângulo distorcido, com ‘asas’ como um avião ultramoderno. A jamanta usa essas grandes asas, seis metros de diâmetro, para ‘voar’ pela água, batendo como uma ave. A primeira vez que vi essas criaturas estava fora da costa do Sri Lanka. Viam-se seis grandes raias jamanta. Suas grandes asas ficariam livres da água e se curvavam nas pontas. Enquanto elas se dirigiam para o mar, uma delas saltou de repente para fora da água e caiu de volta para a superfície com um terrível estampido e um borrifo. Imediatamente, as outras seguiram o exemplo, de modo que o ar estava cheio com o som das jamantas, pulando e batendo no mar, com um barulho como um bombardeio de armas pesadas. Existe a opinião que este comportamento é um método usado – não só pelas jamantas, mas também por outros peixes grandes e até mesmo as baleias – para tentarem se livrar de parasitas irritantes na sua pele. Mas como as jamantas que eu vi estavam pulando uma após a outra, como um tipo de balé, só posso concluir que elas simplesmente estavam se divertindo, ou então talvez uma delas tivesse visto um inimigo e, assim, toda a escola estava tentando assustá-lo com o barulho de seus corpos batendo na superfície da água.” (Minha tradução).

Texto original: “The manta is one of the oddest-looking of all fish to be seen in the open sea. It is shaped in a distorted triangle, with ‘wings’ like an ultra-modern aircraft. The manta uses these great wings, six metres across, to ‘fly’ through the water, flapping like a bird. The first time I saw these creatures was off the coast of Sri Lanka. Six huge manta rays suddenly appeared. Their great wings would come clear of the water and curl over at the tips. As they headed farther out to sea, one of them suddenly leapt out of the water and crashed back on to the surface with a terrific report and a splash. Immediately the others followed suit, so that the air was filled with the sound of the manta rays leaping and crashing back into the sea, with a noise like a heavy gun bombardment. This behaviour is thought to be a method that not only mantas, but also other big fish and even whales use to try and get rid of irritating parasites on their skin. But as the mantas I saw were all leaping after one another, like a sort of ballet, I can only conclude that they were simply enjoying themselves, or else perhaps one of them had seen an enemy and so the whole school was trying to frighten it off with the noise of their bodies crashing on the surface of the water“.

(d) Segundo a literatura, o peso de Mobula (Manta) birostris “ultrapassa 1300 kg” (Figueiredo 1977); “more than 1,360 kg” (Nelson 1994); “superior a 1.800 kg” (Carvalho Filho 1999).

(e) Veja:
http://www.diariodoscampos.com.br/geral/2014/06/maior-especie-de-raia-do-mundo-aparece-em-paranagua/929678/

Agradecimentos

a Donald Schause, pela permissão de usar as duas fotos de cápsulas ovígeras;

ao ictiólogo Vinícius Abilhoa e a Donald Schause, pela leitura final deste texto.

REFERÊNCIAS

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