Uma vítima ilustre 4


2017/03/06

Trabalhando como naturalista no Paraná há quase quarenta anos, está ficando cada vez mais raro para mim, encontrar uma espécie de animal grande que nunca vi. Quando acontece, é motivo para pura alegria!

Como faço quase todos os dias, na tarde de 3 de março caminhei pela rodovia PR-405, a partir da minha casa no km 36 em direção a Guaraqueçaba. Tendo chegado ao km 49, vi dois caracarás (Caracara plancus) pousados no meio da pista uns duzentos metros adiante. Sinal seguro de que ali se encontrará um animal morto. Até então já tinha caminhado algumas horas e encontrado quatro outras vítimas de tráfego: uma cobra-d’água, uma jararaca, um sapo-cururu e um capitão-do-mato (Morpho helenor, grande borboleta azul). Enquanto me aproximei, os caracarás levantaram voo para que este predador maior pudesse ter a sua parte no banquete. E então veio a surpresa!

Estava abatido ali um arapapá (Cochlearius cochlearius), espécie de savacu (socó) cujo formato de bico é absolutamente único entre as aves neotropicais! Sick (1985) descreve este bico da seguinte forma: “extremamente largo e chato; maxila assemelha-se a um barco de quilha alta virada de ponta-cabeça.”.

Já era 18:15 h e o animal, um exemplar jovem, ainda estava praticamente inteiro (os caracarás tinham mal começado de depená-lo). Provavelmente o seu atropelamento tinha acabado de acontecer.


arapapá (Cochlearius cochlearius), jovem, 52 cm de comprimento, vítima de tráfego na rodovia PR-405, km 49,3, em frente à entrada da fazenda “Cabanha Augusta”; Guaraqueçaba (2017/03/03). Reparem na pele orbital verde muito pálida e nas pernas esverdeadas.

Eu nunca tinha visto esta espécie viva e apenas uma vez morta, há muitos anos, também se tratando de um exemplar jovem abatido pelo tráfego. Aquela vítima anterior tinha sido encontrada por José Maria Cardoso de Souza (então funcionário da SPVS na Reserva Natural Morro da Mina), na sexta-feira de 15/05/2004, às 6:30 h, no km ±8,5 da rodovia asfaltada PR-340, no município de Antonina, também dentro da APA de Guaraqueçaba.

O fato de tanto o exemplar de José Mario quanto o meu terem sido encontrados no crepúsculo (matutino e vespertino, respectivamente), não deve surpreender, já que o arapapá é principalmente noturno.

Como será que aconteceram estes dois atropelamentos? Pode ser que as aves estivessem atravessando a estrada em voo baixo, então se chocando contra um veículo motorizado. Tratando-se de exemplares jovens, talvez inexperientes, também existe a possibilidade de que estivessem andando na estrada – não vendo perigo nisso – em busca de um anfíbio para comer.(a) No que se refere ao meu próprio registro considero mais provável a primeira alternativa, já que durante toda a caminhada não tinha encontrado nenhum anfíbio vivo, apesar de ter chovido no dia anterior e a estrada, coberta de saibro fino a grosso, encontrar-se com a superfície parcialmente úmida.

Segundo Sick (1985) o arapapá “habita as margens dos lagos e rios com densa vegetação arbórea, aningais,(b) manguezais” e “de dia descansa sobre galhos bem sombreados onde fica absolutamente quieto, passando despercebido facilmente”. Segundo Spaans (2003), em Suriname a espécie se esconde em densos manguezais durante o dia. No que se refere ao habitat “manguezais”, das duas vítimas de tráfego referidas acima, aquela da rodovia PR-340 (km ±8,5) encontrava-se a uma distância de 2,5 km do manguezal do rio Xaxim, o mais próximo; e aquela da rodovia PR-405 (km 49,3) encontrava-se a 5 km de distância do manguezal do rio Ipanema do Sul. Mestre et al. (2007), num estudo das aves em manguezais da baía de Paranaguá, não encontraram o arapapá, o que pode ter sido consequência da quase invisibilidade desta ave no seu pouso diurno, como mencionado por Sick, mas também pode ser que ali a espécie estava de fato ausente. Existem pouquíssimos registros do arapapá para o Sul do Brasil. No Paraná foi algumas vezes observado no vale do rio Paraná, donde, inclusive, procedem dois dos três exemplares presentes na coleção do Museu de História Natural “Capão da Imbuia”: um deles coletado em 1943 e o outro em 1945. Além destes só existem registros do litoral: as duas vítimas de tráfego relatadas acima, um exemplar coletado em São João da Graciosa, Morretes, em 1957 (tratando-se do terceiro exemplar no Museu do Capão; ver também Straube et al. 2004), e um registro fotográfico de Guaratuba publicado no website Wikiaves. No muito bem estudado município de Curitiba a espécie nunca foi encontrada (Straube et al. 2014).

Em Santa Catarina, é conhecida em Ítapoá (Rosário 1996), Joinville e São Francisco do Sul (registros fotográficos no Wikiaves) e na Ilha de Santa Catarina (Ghizoni-Jr. et al. 2013). No Rio Grande do Sul foi encontrado somente na praia perto de Cassino (Belton 1994).

Quando, no fim da tarde daquela sexta-feira de 3 de março, voltei de ônibus para casa, estava tão feliz que mostrei as minhas fotos do arapapá atropelado a todos os meus vizinhos no ônibus. Eles ficaram admirados com o bico desta ave, afirmando que não conheciam a espécie. Apenas uma passageira, residente nativa da comunidade de Pedra Chata, contou-me que a conhecia bem e que inclusive já a tenha caçado e comido, pois em certa época do ano a espécie visita o arrozal, então estando prontinha para ser comida com arroz e feijão. Das suas informações, a primeira não tenho como conferir, mas sei bem que uma parte do povinho do litoral adora me provocar (ainda mais nas noites de sexta-feira, quando os lobisomens são judiados). Mas a segunda informação dela fui checar já no dia seguinte, com Seu Osni, que há anos cultiva arroz irrigado na Fazenda Tagaçaba. Levei para ele o melhor guia de aves (Sigrist 2015, uma obra que deveria estar presente em todos os domicílios brasileiros fora da Amazônia) e após ele ter examinado bem a bela ilustração do arapapá, afirmou com segurança que nunca tinha visto tal ave nos seus arrozais. No mesmo dia peguei o ônibus para Guaraqueçaba e perguntei a vários conhecidos encontrados no ônibus e na cidade, todos eles residentes autóctones, se porventura conhecem esta ave. Para isso, mostrei-lhes aquela mesma ilustração e também as minhas fotos da vítima encontrada no dia anterior. Das pessoas entrevistadas, os melhores conhecedores da natureza local são:

– João Amadeu Alves, proprietário da Pousada Chauá, em Guaraqueçaba e coproprietário da RPPN Reserva Ecológica do Sebuí. Ele, que sempre morou próximo aos manguezais, afirmou que nunca viu a espécie;

– Eloína Moraes Cunha, funcionária da Reserva Natural Salto Morato. Ela me contou que há poucos anos, “talvez três”, apareceram “uns dois” exemplares na comunidade de Morato, dentro de uma nova plantação de “palmeira-real” (= palmeira-real-da-austrália-de-alexandra, Archontophoenix alexandrae), onde permaneceram por algum tempo e depois foram embora. Esta foi a sua primeira e única observação da espécie. Pela descrição detalhada do bico que Eloína me forneceu, não há dúvida de que ela conhece a ave e à distância a observou muito bem.

Eloína e o seu irmão Pedro Moraes, ambos funcionários da Reserva, nasceram e cresceram no meio da floresta, num sítio atrás do salto do Morato, muito antes da criação da Reserva Natural. São pessoas com um vasto conhecimento da vida silvestre local. Conversar com gente rara como eles e como João Amadeu é um dos maiores prazeres que existem na vida afastada que vivo no litoral norte.

Para finalizar esta carta vou lhes mostrar, através da Tabela 1, que nesta região, entre os vertebrados vitimados pelo tráfego, o grupo das aves é o mais diversificado, seguido pelos mamíferos.

Tabela 1. Número de espécies e de exemplares de vertebrados encontradas como vítima de tráfego no litoral norte do Paraná a partir de 2003. (1)

Grupo Número de espécies [A] Número de exemplares [B] [A/B]
Aves

76

171

0,44

Mamíferos

16

50

0,32

Répteis

24

613

0,04

Anfíbios

14

470

0,03

Total

130

1304

Média 0,10

(1)
Fonte: carta “In memoriam“.

Quem tiver um registro adicional do arapapá no Sul do Brasil, peço o favor de me passar os dados completos. Agradeço desde já pela sua contribuição.

Estou muito grato a Odete Lopez Lopes, pela sua excelente leitura final desta carta.

(a) O arapapá se alimenta de “anfíbios, peixinhos, crustáceos, insetos, folhas e também pequenos mamíferos” (Sick 1985).

(b)
aningal = vegetação constituída de aningaúbas (Montrichardia arborescens), comum nos furos e ilhas flutuantes da Amazônia. (Ferreira 1999).

REFERÊNCIAS

Belton, W. 1994. Aves do Rio Grande do Sul: distribuição e ecologia. (Traduzido do original por T.T. Roberts [Birds of Rio Grande do Sul, Brazil. Part 1. Rheidae through Furnariidae. Bull. Amer. Mus. Natur. Hist. 178: 369-631. 1984; Part 2. Formicariidae through Corvidae. Bull. Amer. Mus. Natur. Hist. 180: 1-241. 1985.]). Editora Unisinos. 584 pp.

Ferreira, A.B. de H. 1999. Novo Aurélio século XXI: o dicionário da língua portuguesa, Ed. 3. Nova Fronteira, Rio de Janeiro. 2128 pp.

Ghizoni-Jr., I.R. et al. (total de 21 coautores). 2013. Checklist da avifauna da Ilha de Santa Catarina, sul do Brasil. Atualidades Ornitológicas On-line Nº 171 – Janeiro/Fevereiro 2013 – www.ao.com.br

Mestre, L.A.M., R. Krul & V. dos S. Moraes. 2007. Mangrove bird community of Paranaguá Bay – Paraná, Brazil. Braz. Arch. Biol. Technol. 50: 75-83.

Rosário, L.A. do. 1996. As Aves em Santa Catarina: distribuição geográfica e meio ambiente. FATMA, Florianópolis. 326 pp.

Sick, H. 1985. Ornitologia Brasileira, uma introdução. Ed. Universidade de Brasília, Brasília. 827 pp., 43 pl.

Sigrist, T. 2015. Aves do Brasil Oriental – guia de bolso. Edit. Avis Brasilis, São Paulo. 314 pp.

Spaans, A.L. 2003. Kustvogels van Suriname = Coastal birds of Suriname. Stichting Natuurbehoud Suriname (STINASU), Paramaribo, Suriname. 144 pp.

Straube, F.C., E. Carrano, R.E.F. Santos, P. Scherer-Neto, C.F. Ribas, A.A.R. de Meijer, M.A.V. Vallejos, M. Lanzer, L. Klemann-Júnior, M. Aurélio-Silva, A. Urben-Filho, M. Arzua, A.M.X. de Lima, R.L.M. Sobânia, L.R. Deconto, A.Â. Bispo, S. de Jesus & V. Abilhôa. 2014. Aves de Curitiba. Coletânea de registros, Ed. 2. Hori Consultoria, Curitiba. (Hori Cadernos Técnicos 9). 528 pp. Disponível em https://ia902705.us.archive.org/19/items/2014HCT9AvesDeCuritiba2Ed/2014%20HCT-9%20Aves%20de%20Curitiba%202%20ed.pdf

Straube, F.C., A. Urben-Filho & D. Kajiwara. 2004. Aves. In: Mikich, S.B. & R.S. Bérníls (Eds.). Livro vermelho da fauna ameaçada no Estado do Paraná. Instituto Ambiental do Paraná, Curitiba, pp. 145-496.


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4 pensamentos em “Uma vítima ilustre

  • Fernando C. Straube

    Caríssimo André. Temos no MHNCI um exemplar coletado em São João da Graciosa, Morretes em 20 de maio de 1957 por Andreas Mayer. É tudo o que sei sobre arapapás no nosso litoral. Vi muitos deles em outras regiões, com destaque para a vila do Crasto em Sant Luzia do Itanhy (Sergipe) onde encontramos um dormitório com várias dezenas. O Edelcio Muscat conseguiu uma linda filmagem com câmera-trap em Ubatuba/SP. Esse lugar é pesquisado por ele há vários anos e nunca tinha visto o animal por lá. Veja que filme interessante: https://www.youtube.com/watch?v=gcjwugSSueI Um grande abraço, Fernando

    • André Autor do post

      Adorei esta filmagem, Fernando, obrigado por tê-la me encaminhado.

      O arapapá deve realmente ser uma grande raridade no litoral do Sul; até agora ninguém me enviou um registro adicional.

      Um grande abraço, André

  • Marcos Ricardo Bornschein

    Muito interessante mesmo o registro. Há mais um que conheço efetuado no litoral do Paraná, feito por mim e Carlos Gussoni. Vimos um adulto em uma estrada de chão à noite. Carlos o fotografou e a foto está publicada no WikiAves.